BM30 - InterMETAL

www.intermetal.pt 2026/3 30 Preço:11 € | Periodicidade: 4 edições por ano | Julho, Agosto, Setembro 2026

ROBÓTICA/ AUTOMAÇÃO/ COMPÓSITOS E MANUTENÇÃO INDUSTRIAL FEIRA DA INDÚSTRIA 4.0/5.0 26/27 NOVEMBRO 2026 Lisboa Pavilhão Carlos Lopes

SUMÁRIO Edição, Redação e Propriedade INDUGLOBAL, UNIPESSOAL, LDA. Avenida Defensores de Chaves, 15, 3.º F 1000-109 Lisboa (Portugal) Telefone (+351) 215 935 154 E-mail: geral@interempresas.net NIF PT503623768 Gerente Aleix Torné Detentora do capital da empresa Grupo Interempresas Media, S.L. (100%) Diretora Luísa Santos Equipa Editorial Luísa Santos, Esther Güell, Nerea Gorriti Marketing e Publicidade Frederico Mascarenhas redacao_intermetal@interempresas.net www.intermetal.pt Preço de cada exemplar 11 € (IVA incl.) Assinatura anual 44 € (IVA incl.) Registo da Editora 219962 Registo na ERC 127299 Depósito Legal 455413/19 Distribuição total +4.100 envios. Distribuição digital a +3.400 profissionais. Tiragem +700 cópias em papel Edição Número 30 – Julho, Agosto, Setembro 2026 Estatuto Editorial disponível em https://www.intermetal.pt/ EstatutoEditorial.asp Impressão e acabamento Lidergraf Rua do Galhano, n.º 15 4480-089 Vila do Conde, Portugal www.lidergraf.eu Os trabalhos assinados são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. É proibida a reprodução total ou parcial dos conteúdos editoriais desta revista sem a prévia autorização do editor. A redação da InterMETAL adotou as regras do Novo Acordo Ortográfico. ATUALIDADE 4 EDITORIAL 5 Entrevista com Alcibíades Paulo Guedes, presidente do Conselho de Administração Executivo do INEGI 11 Agenda Produtech R3 investe 167,8 milhões de euros em tecnologias para transformar a indústria portuguesa 18 EuroBlech 2026: Hannover prepara-se para mostrar o futuro da transformação de chapa 20 A nova indústria da chapa: como a geopolítica, a inteligência artificial e a descarbonização estão a transformar o setor 24 Sines pode criar um novo mercado para a indústria portuguesa da chapa 28 Da inteligência artificial aos centros de dados: a visão da Trumpf para a próxima década 30 Nova quinadora SRB-1003 eleva a fasquia da gama Standard da Amada 34 Três décadas de confiança: parceria entre Dael e Adira continua a iluminar o futuro 36 Flow redefine o corte por jato de água com o novo sistema NX Pro 40 Controlo baseado em PC na indústria de transformação de chapa: a abordagem da Beckhoff para maior flexibilidade, precisão e eficiência 42 Depois do automóvel: para onde vai a chapa portuguesa? 46 Transição energética e grandes infraestruturas: a metalomecânica na linha da frente da nova vaga de investimento 48 A corrosão tornou-se um dos maiores desafios da transição energética 53 Schaeffler aposta em tecnologias para impulsionar a produção industrial de hidrogénio verde 56 Um eixo mais leve para a nova geração de bicicletas 58 Em segurança se solda, corta e molda metais… [7] Espaços confinados – Deteção de gases 62

4 MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER ATUALIDADE Mercado dos robôs humanoides poderá atingir 15 mil milhões de dólares em 2035 A adoção de robôs humanoides deverá acelerar significativamente durante a próxima década, com as receitas globais do setor a atingirem cerca de 15 mil milhões de dólares em 2035, segundo um novo estudo da Interact Analysis. O relatório prevê ainda que as entregas anuais ultrapassem as 700 mil unidades, após um ponto de viragem comercial esperado para 2032. Siemens e Accenture desenvolvem solução para acelerar adoção da IA na indústria Atualmente, o mercado permanece numa fase inicial, com vendas anuais inferiores a 100 mil unidades e uma procura sustentada sobretudo por projetos-piloto, apoios governamentais e parcerias estratégicas. A China deverá liderar a adoção mundial, representando mais de 65% das entregas para aplicações reais até 2035, seguida pelos Estados Unidos. Em conjunto, os dois países poderão concentrar mais de 85% da procura global. A indústria transformadora e a logística surgem como os principais setores de implementação a curto prazo, beneficiando de ambientes operacionais estruturados que facilitam a integração destas tecnologias. Segundo a Interact Analysis, as aplicações industriais deverão tornar-se o principal motor de crescimento do mercado, substituindo progressivamente os atuais segmentos dominantes, como a investigação académica e o entretenimento. Apesar das perspetivas positivas, a consultora alerta que a evolução do mercado dependerá de avanços na inteligência artificial, da fiabilidade do hardware e do desenvolvimento de normas de segurança e certificação. A nova solução permitirá estruturar e contextualizar dados industriais, facilitando a implementação de agentes de IA em áreas como o design, produção, controlo de qualidade, manutenção e gestão fabril. A tecnologia combina uma camada semântica de dados e um grafo de conhecimento da plataforma RapidMiner, da Siemens, com um modelo industrial desenvolvido pela Accenture. Segundo as empresas, a solução permitirá uma implementação mais rápida e padronizada da IA nas fábricas, podendo depois ser adaptada às necessidades específicas de cada setor. Inclui ainda ferramentas para avaliação da viabilidade económica dos projetos, gestão da mudança e formação de equipas. A nova oferta integra os serviços do Accenture Siemens Business Group, criado em 2025 para combinar tecnologias industriais, análise de dados e inteligência artificial.

5 Grupo Mewa nomeia novo CEO O Grupo Mewa anunciou a nomeação de Christian Funk como novo diretor executivo (CEO), cargo que assumirá a 1 de agosto de 2026. A empresa de serviços têxteis, com atividade internacional, considera que a chegada do gestor representa um passo importante na preparação da próxima fase do seu desenvolvimento. Com experiência em empresas como o Boston Consulting Group, Thomas Cook Group e, mais recentemente, o Compass Group Alemanha, onde desempenhava funções de CEO desde 2022, Christian Funk destaca-se pela combinação entre visão estratégica, capacidade de execução operacional e competências nas áreas da digitalização e da transformação empresarial. A mudança integra um processo de transição geracional de longo prazo, destinado a reforçar o crescimento sustentável do grupo. Andreas Söffing, presidente do Conselho Fiscal, sublinha que a experiência internacional de Funk será determinante para impulsionar a evolução da empresa. Christian Funk sucede a Bernhard Niklewitz, que liderou o Grupo Mewa desde 2000 e deixou funções em maio deste ano. EDITORIAL A indústria europeia da transformação de chapa metálica entra na segunda metade desta década com vários desafios pela frente, mas também com novas oportunidades à vista. A queda o setor automóvel, associada à instabilidade geopolítica, à escassez de mão de obra e à crescente exigência dos mercados emergentes, obrigam as empresas a repensar estratégias que durante anos pareciam mais que certas. A boa notícia é que a maturidade alcançada por tecnologias como a inteligência artificial, os gémeos digitais, a robótica colaborativa ou a análise avançada de dados oferece às empresas instrumentos capazes de responder a esses desafios com níveis de eficiência e flexibilidade até há poucos anos difíceis de imaginar. E aqui a palavra chave talvez seja mesmo ‘flexibilidade’. A médio/longo prazo, de pouco nos serve termos altos níveis de produtividade se estamos completamente dependentes de um só setor. Conseguir produzir para vários segmentos diminui drasticamente a exposição às oscilações na conjuntura. E não faltam exemplos de potenciais novos mercados, com novos níveis de exigência. Centros de dados, indústria da defesa, aeroespacial, energia e grandes infraestruturas estão a criar novas oportunidades para quem consegue fabricar com maior precisão, assegurar níveis elevados de rastreabilidade e cumprir especificações cada vez mais rigorosas. A transição energética é outro exemplo dessa mudança. Tecnologias como o hidrogénio trazem novos desafios à metalomecânica, entre eles o comportamento dos materiais em ambientes altamente corrosivos, que exige novas abordagens ao nível da engenharia, dos processos e da seleção de ligas. Esta edição da InterMetal percorre este novo mapa industrial. Em destaque, a entrevista a Alcibíades Paulo Guedes, presidente do Conselho de Administração Executivo do INEGI, que defende uma indústria portuguesa capaz de criar valor através do conhecimento, da inovação e da diferenciação tecnológica. Uma conversa que assinala os 40 anos do instituto e que convida as empresas portuguesas a olhar para o futuro com ambição. Dedicamos igualmente espaço às tecnologias para chapa metálica, onde a automação, a digitalização e os avanços nos processos de corte, quinagem e soldadura continuam a redefinir os limites da produtividade e da qualidade. Finalmente, no dossier Energia e Infraestruturas, analisamos o papel crescente da metalomecânica em projetos relacionados com as energias renováveis, incluindo o hidrogénio. São investimentos que exigem capacidade industrial, engenharia especializada e uma resposta tecnológica cada vez mais sofisticada. Antes da pausa de verão, aproveitamos para desejar boas férias a todos os leitores, parceiros e anunciantes que continuam a acompanhar a InterMetal. Voltamos em setembro com mais informação para ajudar a metalomecânica portuguesa a enfrentar os próximos tempos com confiança. Até lá, boa leitura! Uma transformação que está apenas a começar

6 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER João Paulo Davim lidera ranking nacional de Engenharia Mecânica e Aeroespacial e alcança 50.º lugar mundial João Paulo Davim, professor catedrático do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade de Aveiro (UA) e investigador do Centro de Tecnologia Mecânica e Automação (TEMA), foi classificado como o cientista mais bem posicionado em Portugal na área da Engenharia Mecânica e Aeroespacial, ocupando igualmente o 50.º lugar a nível mundial na edição de 2026 do Ranking of Best Scientists in Mechanical and Aerospace Engineering. Nova fábrica da Alstom em Portugal deverá estar concluída em 2028 A construção da nova fábrica de comboios da Alstom, em Guifões, Matosinhos, arrancou a 30 de junho, no âmbito do maior investimento de sempre em material circulante para a CP – Comboios de Portugal (CP). Com conclusão prevista para 2028, a unidade terá 20 mil metros quadrados e irá produzir 81 automotoras destinadas às linhas suburbanas da CP. A instalação da fábrica integra o contrato de aquisição de 153 comboios pela CP à Alstom, correspondente a 117 unidades previstas no contrato-base e mais 36 adicionais. O investimento superior a 1.064 milhões de euros, apresentado pelo Governo como o maior de sempre em material circulante, irá permitir antecipar os prazos de entrega em quase dois anos. O projeto prevê ainda a criação de 300 postos de trabalho diretos, através da contratação de técnicos altamente qualificados, bem como cerca de mil empregos indiretos. Segundo o Governo, a renovação da frota da CP representa um marco da atual política de mobilidade, enquadrando-se numa estratégia de aposta na ferrovia que inclui a preparação da Alta Velocidade, a modernização da infraestrutura ferroviária, o reforço da capacidade da CP, a atração de investimento privado e a integração dos diferentes modos de transporte. Renderização da nova fábrica da Alstom em Guifões, após a sua conclusão O académico foi também distinguido com o Mechanical and Aerospace Engineering Leader Award 2026, reconhecimento atribuído pela Research.com, plataforma internacional de avaliação e divulgação de desempenho científico. A classificação é determinada com base no D-index (Discipline H-index), um indicador bibliométrico que considera exclusivamente as publicações científicas e respetivas citações numa área disciplinar específica. Para integrar este ranking, os investigadores devem apresentar um D-index mínimo de 30 na área da Engenharia Mecânica e Aeroespacial. O Ranking of Best Scientists in Mechanical and Aerospace Engineering reúne alguns dos mais destacados investigadores mundiais desta área, constituindo uma referência internacional para a avaliação do impacto e relevância da produção científica. Mais informações sobre o professor estão disponíveis em: https://www.ua.pt/pt/p/10313981

7 EWF promove debate sobre IA e competências industriais no Professionals of the Future 2026 A European Federation for Welding, Joining and Cutting (EWF) realiza, no próximo dia 20 de outubro, em Lisboa, a terceira edição do Professionals of the Future (POTF), iniciativa que reunirá representantes da indústria, entidades de formação e decisores europeus para discutir o impacto da inteligência artificial e da remanufatura nas competências do futuro. O encontro, que decorre no Hotel Eurostars, no Parque das Nações, centra-se no conceito de uma indústria transformadora orientada para as pessoas e no pressuposto de que a adoção da inteligência artificial deve ser acompanhada pelo desenvolvimento de novas competências e pela atualização dos sistemas de qualificação profissional. O programa inclui uma sessão dedicada à colaboração entre o ser humano e a IA, seguida de três mesas-redondas sobre ferramentas digitais para educação e formação, remanufatura e transformação industrial, e estratégias para atrair, desenvolver e reter talento. Durante a tarde, o debate incidirá sobre o papel das pessoas na transformação industrial impulsionada pela inteligência artificial e pela economia circular. A iniciativa integra os resultados de vários projetos europeus financiados pelos programas Horizon Europe e Erasmus+ e pretende reforçar a ligação entre ensino, qualificação e indústria, promovendo uma força de trabalho preparada para os desafios da transformação digital e sustentável da indústria transformadora.

8 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER INOV.AM Shaping Tomorrow: o futuro da fabricação aditiva debate-se em Leiria Leiria recebe, entre 15 e 17 de setembro de 2026, o INOV.AM Shaping Tomorrow, evento internacional dedicado à fabricação aditiva que assinala o encerramento da Agenda INOV.AM. A iniciativa decorre no Teatro Miguel Franco e no Mercado Sant'Ana, reunindo especialistas, investigadores, empresas e instituições para debater a evolução das tecnologias de fabrico avançado. O programa inclui a segunda edição da Conferência Internacional INOV.AM, um fórum de alto nível e uma exposição tecnológica que dará a conhecer soluções e desenvolvimentos resultantes da Agenda. Ao longo dos três dias estão igualmente previstas sessões técnicas, palestras, mesas-redondas, demonstrações ao vivo e visitas guiadas. O encontro pretende reforçar a ligação entre indústria, academia e centros de investigação, promovendo a partilha de conhecimento e a transferência de tecnologia. Entre os temas em debate estarão os moldes híbridos, os materiais e sistemas de fabricação aditiva, os processos híbridos de fabrico e as ferramentas digitais que suportam a transformação da indústria. Universidade de Aveiro transforma resíduo da indústria do alumínio em material para tratamento de água Investigadores da Universidade de Aveiro desenvolveram um novo material para descontaminação de água a partir da valorização da chamada ‘lama vermelha’, um resíduo gerado na produção de alumina pelo processo Bayer. A solução recorre a tecnologias de fabrico aditivo para produzir estruturas tridimensionais por impressão 3D, posteriormente reforçadas com nanotubos de carbono e um revestimento de dióxido de titânio. Desenvolvido por Nuno Gonçalves, Ricardo Silva, Tito Trindade e Rui Novais, o material apresenta propriedades fotocatalíticas que, sob radiação ultravioleta, permitem degradar contaminantes presentes na água. Nos ensaios realizados, foi possível remover mais de 90% da ciprofloxacina, um antibiótico frequentemente detetado em meios aquáticos, ao fim de uma hora, atingindo em alguns testes uma eliminação quase total em cerca de 30 minutos. Além da elevada eficiência, o material demonstrou capacidade de reutilização sem perda significativa de desempenho, evidenciando o potencial da combinação entre valorização de resíduos industriais, fabrico aditivo e tecnologias avançadas para aplicações alinhadas com os princípios da economia circular. Os investigadores Rui Novais, Ricardo Silva, Nuno Gonçalves e Tito Trindade. Foto: Universidade de Aveiro.

9 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Nova refinaria de antimónio em Sines irá reforçar a cadeia europeia de matériasprimas críticas A Alchemy & Critical Metals (ACM) vai instalar uma refinaria de antimónio na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), após assinar um contrato de reserva com a aicep Global Parques. A unidade, cuja entrada em funcionamento está prevista para 2030, terá capacidade para refinar 10 mil toneladas anuais de antimónio, incluindo 2.500 toneladas provenientes de reciclagem. O projeto, que ocupará um terreno de 131 mil metros quadrados, deverá criar cerca de 150 postos de trabalho diretos e 300 indiretos. Considerado uma matéria-prima crítica pela União Europeia, o antimónio é utilizado em setores como energia, semicondutores, mobilidade e defesa. A nova refinaria pretende reforçar a capacidade europeia de processamento destes materiais e consolidar Sines como um polo de investimento para projetos industriais estratégicos. Cecimo cria plataforma europeia para impulsionar a fabricação aditiva A Cecimo – Associação Europeia de Tecnologias de Fabrico – lançou a AM-Europe, uma nova plataforma dedicada à fabricação aditiva que pretende reforçar a representação e o desenvolvimento deste setor à escala europeia. Apresentada em Bruxelas, a iniciativa funcionará no âmbito da estrutura da Cecimo, mas com identidade própria, com vista a diálogo entre a indústria e as instituições europeias. A plataforma atuará em áreas como políticas industriais, normalização, colaboração entre empresas, inteligência de mercado e desenvolvimento de competências, procurando consolidar o ecossistema europeu da fabricação aditiva. Entre os membros fundadores encontram-se a UCIMU, Aita3D, Addimat, FMTI, Swissmem e Amuk. Segundo Virgilio García, presidente da AM-Europe, a fabricação aditiva é hoje uma tecnologia estratégica para a competitividade, inovação e resiliência da indústria europeia. A plataforma pretende contribuir para um enquadramento favorável ao investimento e ao crescimento das empresas, num contexto em que esta tecnologia assume um papel crescente em setores como a aeronáutica, defesa, energia e saúde. igus® Lda. Tel. 226 109 000 (chamada para rede fixa nacional) info@igus.pt A robótica não tem de ser complexa Automação modular, flexível e económica para qualquer aplicação! Descubra a automação Low Cost Sem título-2 1 09/07/2026 15:28:35

Bosch e Universidade do Minho lançam pós-graduação em compras globais e cadeia de abastecimento A Bosch e a Universidade do Minho (UMinho) desenvolveram uma pós-graduação em Compras Globais e Gestão da Cadeia de Abastecimento, destinada a formar profissionais para responder aos desafios da gestão das cadeias de valor num contexto de crescente digitalização, sustentabilidade e volatilidade dos mercados. As candidaturas decorrem até 17 de julho e o curso arranca em setembro de 2026. Com a duração de 10 meses, o programa adota um modelo dual de aprendizagem, combinando dois dias semanais de formação académica na UMinho com três dias de estágio nas instalações da Bosch, em Braga. Os estudantes selecionados beneficiarão ainda de uma bolsa anual de 7.090 euros. O plano curricular inclui temas como gestão de compras, economia global, análise financeira, gestão de projetos, risco, compliance e análise de dados. A iniciativa reforça a colaboração entre a universidade e a indústria, procurando responder à crescente procura de especialistas em compras e gestão da cadeia de abastecimento, áreas consideradas determinantes para a competitividade das empresas industriais. 10 ATUALIDADE MAIS NOTÍCIAS DO SETOR EM: WWW.INTERMETAL.PT • SUBSCREVA A NOSSA NEWSLETTER Inovação industrial em destaque na EnerH2O e na nova ExpoProcessos Nos dias 23 e 24 de setembro de 2026, a Exponor recebe a quarta edição da EnerH2O, dedicada à inovação tecnológica nos setores da energia e da água, e a estreia da ExpoProcessos, feira internacional de tecnologia para processos industriais. Em conjunto, os eventos reúnem empresas, centros de investigação, universidades, associações e decisores para apresentar soluções nas áreas da energia, água, automação, robótica, inteligência artificial, digitalização, economia circular e descarbonização. A EnerH2O centra-se em tecnologias para a energia renovável, eficiência energética e gestão da água, enquanto a ExpoProcessos reúne fornecedores de tecnologia para processos industriais. O programa inclui conferências sobre eficiência energética, sustentabilidade, transformação digital e competitividade industrial. Destinadas exclusivamente a profissionais, as feiras pretendem reforçar Portugal como um polo de inovação, promovendo parcerias, transferência de conhecimento e a modernização do tecido industrial.

ENTREVISTA 11 ALCIBÍADES PAULO GUEDES, PRESIDENTE DO CONSELHO DE ADMINISTRAÇÃO EXECUTIVO DO INEGI “Temos de deixar de competir pelo custo para competir pelo valor” Luísa Santos Quarenta anos depois da sua fundação, o INEGI é hoje uma instituição de referência no campo da inovação tecnológica. Da engenharia mecânica aos materiais avançados, da mobilidade ao espaço, o instituto tem acompanhado (e muitas vezes antecipado) a evolução da indústria, apoiando empresas nacionais e internacionais no desenvolvimento de novos produtos e processos. Nesta entrevista à InterMetal, o presidente do Conselho de Administração Executivo da instituição, Professor Alcibíades Paulo Guedes, faz um balanço destas quatro décadas de atividade, mas olha sobretudo para o futuro: a competitividade da indústria europeia, a inteligência artificial, os novos materiais, a reindustrialização e os desafios de transformar conhecimento em valor económico.

ENTREVISTA 12 Em abril, durante as comemorações dos 40 anos do INEGI, afirmou que “a longevidade não resulta da repetição, mas da capacidade de mudança”. É esse o segredo do INEGI? Que momentos marcaram verdadeiramente o percurso da instituição? Quando fiz essa afirmação, estava menos a pensar em momentos específicos da nossa história e mais na forma como o INEGI encara a sua missão. Uma organização que pretende manter-se relevante durante várias décadas não pode ficar parada. Tem de evoluir continuamente porque a indústria muda, os clientes mudam e as tecnologias evoluem a um ritmo extraordinário. Aquilo que fazíamos há 30 anos pertence hoje praticamente à pré- -história tecnológica. Naturalmente, houve momentos decisivos no nosso crescimento. Os primeiros grandes projetos europeus, na década de 2000, permitiram-nos ganhar dimensão internacional. A mudança para as atuais instalações, em 2008, foi outro marco importante. Mais recentemente, a ampliação das nossas infraestruturas, em plena pandemia de Covid-19, representou uma demonstração de confiança no futuro, numa altura em que estávamos a investir vários milhões de euros apesar da enorme incerteza. Mas a verdadeira transformação aconteceu sobretudo dentro da organização. Fomos adaptando os nossos processos, os sistemas de gestão e a própria estrutura de governação. À medida que crescemos — de cerca de 50 colaboradores há 17-18 anos para mais de 350 hoje — percebemos que era necessário profissionalizar a gestão. Um modelo assente apenas num diretor-geral deixou de responder à complexidade da instituição e evoluímos para um Conselho de Administração Executivo dedicado. Ao mesmo tempo, investimos muito na qualificação das nossas equipas, na gestão de projetos, na relação com os clientes e na digitalização dos processos internos. Tivemos também a vantagem de contar, desde muito cedo, com uma forte participação das empresas nos órgãos de gestão do INEGI, o que nos permitiu compreender permanentemente quais eram as necessidades da indústria. No fundo, a nossa capacidade de adaptação resulta desta procura constante pelas melhores práticas internacionais. Procuramos aprender continuamente e melhorar a forma como cumprimos a nossa missão. É essa cultura de evolução permanente que explica, em grande medida, o sucesso destes 40 anos do INEGI. Disse também que a vossa história é feita de pessoas. Num mercado cada vez mais competitivo, como se conquista e retém investigadores e engenheiros capazes de transformar conhecimento científico em valor económico? É um grande desafio. Estamos inseridos num mercado europeu cada vez mais competitivo, onde profissionais altamente qualificados encontram facilmente oportunidades, quer na indústria, quer em centros tecnológicos ou empresas de outros países. Precisamente por isso, nos últimos anos reforçámos significativamente a nossa capacidade de gestão de pessoas. Investimos em equipas especializadas em recursos humanos, acelerámos os processos de progressão na carreira, melhorámos a política salarial e procurámos identificar mais cedo o potencial de cada colaborador, criando percursos profissionais mais ajustados. Ao mesmo tempo, introduzimos maior flexibilidade na organização do trabalho, porque sabemos que esse é hoje um fator valorizado pelos profissionais mais qualificados. Outra dimensão importante tem sido o employer branding. O INEGI é hoje uma organização muito mais conhecida do que era há alguns anos e isso faz diferença. Os jovens procuram projetos desafiantes, onde possam trabalhar em tecnologias de ponta e participar em iniciativas que tenham impacto real na transformação da indústria e do País. Essa possibilidade de enfrentar novos desafios quase todos os dias é um fator muito diferenciador. O resultado tem sido muito positivo. A nossa taxa de rotação continua abaixo da média do setor tecnológico e dos restantes centros de tecnologia e inovação. Sabíamos que iríamos crescer muito nos últimos cinco anos e preparámo-nos para isso, reforçando antecipadamente a equipa e recrutando profissionais com experiência industrial. Além disso, os resultados do inquérito ao clima organizacional têm sido muito encorajadores. Nesse contexto, a comunicação assume hoje um papel mais importante? Sem dúvida. A comunicação é hoje uma ferramenta estratégica para atrair talento. Naturalmente comunicamos com a sociedade em geral, mas dedicamos uma atenção muito especial aos estudantes e aos jovens recém-formados. Participamos regularmente em feiras de emprego, estamos presentes nas principais universidades e procuramos dar a conhecer o tipo de projetos que desenvolvemos. “Se continuarmos a produzir apenas 'a pecinha, o parafuso e a chapinha', dificilmente conseguiremos diferenciar-nos”

ENTREVISTA 13 Também apoiamos várias competições universitárias ligadas à Fórmula Student, ao espaço, à aeronáutica e a outras áreas tecnológicas, quer na Universidade do Porto, quer no Instituto Superior Técnico, na Universidade do Minho e noutras instituições. Consideramos este apoio uma forma concreta de investir nas futuras gerações de engenheiros e de aproximar os estudantes da realidade da inovação industrial. É frequente os vossos quadros saírem do INEGI para integrarem empresas industriais? Acontece, mas faz parte da nossa missão. Naturalmente gostaríamos de reter os nossos melhores profissionais, mas uma das formas mais importantes de medir o impacto de um centro tecnológico é precisamente a capacidade de transferir conhecimento para a indústria — e isso faz-se também através das pessoas. Quando um engenheiro que passou pelo INEGI leva esse conhecimento para uma empresa industrial, está igualmente a cumprir a missão da instituição. É um sentimento ambivalente: por um lado, lamentamos perder bons profissionais; por outro, sabemos que estamos a contribuir para reforçar as competências tecnológicas do tecido empresarial. Além disso, temos hoje antigos colaboradores a desempenhar funções de direção noutros centros de tecnologia e inovação, o que demonstra que o INEGI é reconhecido como uma excelente escola de formação de talento. Com a crescente utilização da inteligência artificial, da robótica e da automação, qual será o papel das pessoas na indústria do futuro? Não acreditamos num cenário de substituição massiva das pessoas pela tecnologia. Pelo contrário. A tecnologia deverá libertar os trabalhadores das tarefas mais repetitivas, fisicamente exigentes ou de menor valor acrescentado, permitindo-lhes assumir funções de maior responsabilidade, supervisão e decisão. Aliás, aquilo que ouvimos diariamente das empresas é precisamente o contrário: existe uma enorme dificuldade em encontrar mão de obra para muitas funções. Em vários projetos percebemos que a motivação para investir em inovação resulta precisamente da perda de conhecimento técnico nas organizações ou da inexistência de profissionais disponíveis para determinadas tarefas. Por isso, vejo a evolução de forma bastante natural. Haverá uma colaboração cada vez mais estreita entre pessoas e máquinas, enquanto surgem novas profissões que hoje ainda nem existem. O elemento humano continuará a ser determinante na tomada de decisão, na criatividade, na liderança, na relação com o cliente e na relação entre equipas. A substituição vai ocorrer sobretudo nas tarefas mais repetitivas, mais pesadas e menos qualificadas. Trata-se de uma evolução que acompanha o desenvolvimento económico das sociedades e que já é visível em muitos setores industriais. O INEGI nasceu muito ligado à engenharia mecânica e à Universidade do Porto. Hoje atua em áreas tão diversas como a aeronáutica, o espaço, a energia, a mobilidade ou as tecnologias para o mar. Como se consegue crescer para novos domínios sem perder a identidade que esteve na origem do Instituto? Na realidade, não houve uma rutura. A nossa base continua a ser a engenharia mecânica e a engenharia industrial. O que mudou foi a diversidade das aplicações. Quer estejamos a desenvolver uma solução para a aeronáutica, para o espaço, para a mobilidade ou para o setor do mar, continuamos a aplicar os mesmos princípios de engenharia. O que varia são os requisitos técnicos, os processos de desenvolvimento e o nível de exigência de cada indústria. À medida que fomos entrando em setores tecnologicamente mais avançados, tivemos naturalmente de evoluir. Hoje trabalhamos em ambientes que exigem salas limpas, processos certificados, elevados níveis de segurança da informação e metodologias muito específicas. O próprio INEGI teve de adaptar a sua organização para responder a essas exigências. Ao mesmo tempo, fomos alargando as competências para além dos materiais metálicos. Hoje trabalhamos muito com materiais compósitos, polímeros e outros materiais avançados, impulsionando a evolução das indústrias onde estes já são predominantes. Mas esta capacidade de adaptação faz parte da nossa identidade desde a origem. O INEGI é um spin-off do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, uma escola que sempre encarou a engenharia mecânica numa perspetiva muito abrangente. Foi dela que nasceram áreas como a engenharia industrial, a engenharia de materiais ou a biomecânica. Essa visão multidisciplinar continua profundamente enraizada na cultura do INEGI. No fundo, mantivemos sempre o mesmo propósito: ajudar a indústria a inovar. O que evolui são as tecnologias, os mercados e as competências necessárias para responder aos novos desafios.

ENTREVISTA 14 Que evolução encontrou na indústria portuguesa ao longo destes 40 anos? As empresas procuram hoje um parceiro tecnológico diferente daquele que procuravam há duas décadas? A transformação foi enorme. Há vinte ou trinta anos era necessário explicar às empresas porque era importante inovar. Hoje essa discussão praticamente desapareceu. Todas percebem que, se não tiverem fatores diferenciadores não conseguem competir. Tal como não conseguem competir com base na mão de obra barata. É necessário desenvolver produtos diferenciadores, incorporar tecnologia e acrescentar valor. Naturalmente, o INEGI acompanhou essa evolução. Ao longo destas quatro décadas fomos assistindo ao crescimento da maturidade tecnológica das empresas portuguesas e isso também nos obrigou a evoluir. Os nossos clientes são hoje muito mais exigentes. Há trinta anos, uma simulação numérica ou um protótipo obtido por fabrico aditivo eram suficientes para impressionar uma empresa. Atualmente, muitas delas já têm essas tecnologias internamente. Isso significa que temos de estar constantemente um ou dois passos à frente. Essa evolução levou-nos a reforçar a investigação científica, a internacionalizar a atividade e a participar em projetos europeus cada vez mais exigentes. Se queremos ajudar a indústria portuguesa a competir internacionalmente, também nós temos de competir ao mais alto nível. Ainda assim, considero que existe um desafio importante pela frente: subir nas cadeias de valor. Portugal continua, em muitos casos, demasiado concentrado no fornecimento de componentes e de "pecinhas", no valor da hora de trabalho, quando deveria estar a desenvolver sistemas completos e produtos tecnologicamente mais sofisticados, de maior valor acrescentado. Só assim se consegue competir em mercados desenvolvidos e maduros. Até porque a concorrência internacional aumentou bastante… Sem dúvida. As empresas portuguesas competem hoje num mercado global e os centros tecnológicos também começam a sentir essa pressão. Cada país tem as suas infraestruturas, laboratórios e centros de investigação, pelo que competir internacionalmente exige especialização. A nossa estratégia passa precisamente por identificar áreas onde possamos atingir dimensão crítica e afirmar- -nos internacionalmente. Não podemos querer fazer tudo. Temos de escolher os domínios em que conseguimos gerar verdadeiro valor acrescentado e ser reconhecidos entre os melhores parceiros tecnológicos europeus. Num contexto europeu em que tanto se fala de reindustrialização, autonomia tecnológica e soberania industrial, que papel pode Portugal desempenhar e como pode o INEGI contribuir para esse objetivo? A Europa precisa de inovar mais depressa e de transformar conhecimento em produtos, serviços e negócio com muito maior rapidez. Quando comparamos a Europa com os Estados Unidos ou com a China, percebemos que o problema já não está na produção científica. A Europa produz ciência de elevada qualidade e tem excelentes universidades, centros tecnológicos e laboratórios. O verdadeiro desafio está na capacidade de transformar esse conhecimento em empresas competitivas, em produtos industriais e em crescimento económico. Há dois fatores fundamentais: velocidade e escala. Hoje, para desenvolver uma tecnologia ou produto verdadeiramente competitivos, é necessário investir durante anos e atingir rapidamente uma dimensão suficiente para competir globalmente. É precisamente aqui que a Europa continua a revelar maiores dificuldades. Portugal deve posicionar-se dentro dessa estratégia europeia. Não temos escala para desenvolver uma política industrial isolada. Temos de identificar as áreas onde a Europa pode continuar a liderar e concentrar aí os nossos recursos e competências. Projeto NoTank - O INEGI criou um tanque de armazenamento de combustível modular, mais leve e mais eficiente face aos existentes para ser integrado em satélites Cubsat da ESA.

ENTREVISTA 15 A reindustrialização europeia só será possível se for acompanhada por uma forte aposta na inovação. Não podemos reconstruir a indústria com os modelos produtivos de há trinta anos. Precisamos de automação, digitalização, inteligência artificial, novos materiais e tecnologias avançadas. Sem isso, simplesmente não conseguiremos competir. Ganhar escala é, portanto, um dos principais desafios europeus? Sim, a escala é determinante. Para sermos realmente competitivos numa determinada tecnologia temos de trabalhar nessa área durante muitos anos, desenvolver competências muito especializadas e produzir em quantidade suficiente para ganhar eficiência. É precisamente isso que explica parte do sucesso de outras geografias. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma enorme capacidade para transformar rapidamente uma inovação numa empresa global. Na Europa esse processo continua a ser demasiado lento, ou mesmo inexistente. Mas temos de fazer escolhas. Não podemos querer liderar todas as tecnologias. Portugal, em particular, deve concentrar-se nos domínios onde já tem competências relevantes e onde consiga criar massa crítica suficiente para competir internacionalmente. A área da defesa poderá ser uma dessas apostas? Pode ser, mas apenas integrada numa estratégia europeia. A defesa é um excelente exemplo de um setor onde nenhum país europeu, especialmente um país da dimensão de Portugal, consegue atuar isoladamente. Temos de participar em programas internacionais, cooperar com outros Estados e integrar cadeias de fornecimento europeias. Ao mesmo tempo, é essencial escolher nichos tecnológicos onde possamos ser realmente diferenciadores. Os drones são um bom exemplo. O INEGI acompanha esta área praticamente desde o início e participou nos primeiros projetos desenvolvidos pela Tekever em Portugal. Também temos competências consolidadas em materiais compósitos e sistemas de condução autónoma. Mas não podemos querer desenvolver todas as tecnologias ligadas à defesa. É muito mais eficaz concentrar e especializar recursos nas áreas em que temos maiores competências. No futuro, o financiamento europeu continuará a ser um dos principais motores da investigação aplicada ou será necessário encontrar novos modelos de financiamento? O financiamento continuará a ser importante, mas não pode ser o principal motor do sistema. No INEGI sempre defendemos um modelo equilibrado, assente em três pilares: financiamento competitivo nacional e europeu, financiamento base e projetos contratados diretamente pela indústria. Entre 40% e 50% do nosso volume de negócios resulta precisamente de trabalho diretamente contratualizado por empresas. Se assim não fosse, deixaríamos de cumprir a nossa missão enquanto centro de tecnologia e inovação. O financiamento público deve servir para reduzir risco tecnológico e acelerar a inovação, mas não substitui o mercado. O verdadeiro desafio começa quando uma tecnologia está pronta para ser industrializada e comercializada. Nessa fase já não é o financiamento público que faz a diferença; é a capacidade de mobilizar capital privado. E é aqui que a Europa e Portugal continuam a revelar fragilidades. Somos muito competentes a financiar investigação e desenvolvimento, mas continuamos a ter dificuldade em financiar o crescimento das empresas tecnológicas. Muitas vezes desenvolvemos a tecnologia, assumimos o risco inicial e, quando chega o momento da industrialização, é outro país/região que cria valor económico a partir desse conhecimento. Precisamos de mecanismos que permitam reter esse valor na Europa. Portugal tem evoluído nesse domínio? Sim. O ecossistema nacional de inovação amadureceu muito nos últimos anos. Hoje existem mais startups, mais empreendedorismo e uma cultura empresarial muito mais aberta à inovação. Mas existe uma diferença importante entre criar uma startup de software e desenvolver uma startup industrial ou tecnológica. Quando falamos de novos materiais, biotecnologia ou equipamentos industriais, os investimentos necessários são incomparavelmente maiores. São projetos mais longos, mais exigentes e sujeitos a certificações complexas. Nesses casos, será fundamental criar instrumentos financeiros que permitam partilhar risco entre investidores privados e políticas públicas, facilitando a passagem da inovação para o mercado. No fundo, o objetivo deve ser reforçar um ecossistema onde conhecimento científico, indústria, investimento e empreendedorismo funcionem de forma integrada.

ENTREVISTA 16 Considerando a sua experiência nas áreas da logística e das cadeias de abastecimento, como avalia o impacto da atual conjuntura geopolítica na indústria portuguesa? A conjuntura internacional introduziu novos fatores de incerteza, mas considero que o impacto real tem sido menos dramático do que muitas vezes é transmitido. Ao longo das últimas décadas, a economia mundial especializou-se profundamente. Há empresas e países que desenvolveram competências muito específicas em determinadas tecnologias ou componentes, e essas capacidades não podem ser transferidas de um continente para outro em poucos meses por decisão política. Naturalmente, as tarifas, os conflitos e as restrições comerciais obrigam as empresas a adaptarem-se, diversificar mercados e procurar fornecedores alternativos. Mas dificilmente inverterão, no curto prazo, décadas de especialização industrial. O mais importante é reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento. As empresas devem diversificar mercados, estabelecer relações mais duradouras com clientes e fornecedores e reduzir a dependência de soluções oportunistas. Paradoxalmente, os últimos anos também deixaram uma aprendizagem positiva. Depois da pandemia, das tensões geopolíticas e das alterações nas cadeias logísticas, a indústria está hoje muito mais preparada para gerir contextos de instabilidade do que estava há cinco anos. Os materiais surgem frequentemente nas suas intervenções como uma das grandes prioridades do futuro. Onde identifica as maiores oportunidades para a engenharia dos materiais? Os materiais serão um dos principais motores da inovação industrial nas próximas décadas. A procura dirige-se cada vez mais para soluções mais leves, mais resistentes, mais sustentáveis, recicláveis e energeticamente eficientes. Para desenvolver produtos com maior valor acrescentado será indispensável recorrer a materiais com características cada vez mais avançadas. Portugal não é um país rico em matérias-primas, pelo que a nossa competitividade não passará pela extração, mas pela capacidade de transformar materiais em produtos sofisticados e tecnologicamente diferenciadores. No INEGI trabalhamos precisamente nessa lógica. Somos grandes utilizadores de materiais avançados e procuramos aplicá-los em setores onde possam gerar maior valor para a indústria, da mobilidade à aeronáutica, passando pela energia, pelos equipamentos industriais ou pelos têxteis técnicos. Quando falamos de materiais falamos também de biomateriais. Portugal poderá ter aí uma oportunidade? Sem dúvida. Portugal tem uma importante fileira florestal e isso representa uma oportunidade muito interessante para o desenvolvimento de materiais de base biológica. Instalações do INEGI no Porto.

ENTREVISTA 17 Mas os biomateriais colocam também novos desafios de engenharia. Ao contrário dos materiais metálicos tradicionais e muito como os compósitos, exigem processos específicos de formulação, combinação e transformação para obter as propriedades pretendidas. No INEGI temos vindo a reforçar competências nesta área, integrando especialistas em engenharia química e engenharia de materiais, precisamente para responder a estes desafios. No entanto, o nosso principal foco continua a ser nos compósitos, e também a sua reciclagem, reutilização e sustentabilidade. É uma área onde existe ainda um enorme potencial de desenvolvimento. Existe algum projeto que simbolize particularmente bem aquilo que o INEGI representa ao fim de quatro décadas? É sempre difícil escolher apenas um ou dois projetos entre milhares de iniciativas desenvolvidas ao longo destes 40 anos. Há, no entanto, alguns casos particularmente simbólicos. Recordo, por exemplo, os primeiros esquentadores inteligentes desenvolvidos em parceria com a Bosch, nos anos 1990, 2000. Do trabalho conjunto resultou uma linha completa de produtos verdadeiramente inovadores. Hoje, a Bosch tem cá o seu próprio centro de investigação e desenvolvimento, com mais de 200 pessoas. É um ótimo exemplo do que o INEGI pode fazer por uma empresa ou por um setor. Outro marco importante foi o desenvolvimento da garrafa Pluma. Este caso é muito interessante porque conseguimos criar uma tecnologia que, atualmente, tem diversas aplicações, desde o armazenamento de gases de altíssima pressão, super-comprimidos, em depósitos muito pequenos, ao fabrico de reservatórios de ‘nível 5’, os mais avançados do mundo, para aplicações espaciais. Mas, mais do que um projeto específico, aquilo que verdadeiramente distingue o INEGI é a capacidade de ajudar a transformar conhecimento científico em inovação com impacto económico, em parceria com as empresas. Acredito que isso é muito mais importante do que produzir papers ou artigos científicos. Daqui a dez anos, quando o INEGI celebrar meio século de existência, que país e que indústria gostaria de encontrar? E que papel espera que o Instituto continue a desempenhar nessa altura? Gostaria de poder dizer que o INEGI teve um impacto verdadeiramente significativo na indústria e no país. Acredito que, cada vez mais, a qualidade do trabalho desenvolvido em ciência, tecnologia e inovação será medida pelo impacto que consegue gerar na indústria e, sobretudo, na vida das pessoas. No final, é isso que realmente importa. É com esse objetivo que estamos a preparar o futuro, definindo os nossos roadmaps tecnológicos, identificando as áreas onde faz mais sentido concentrar a investigação e escolhendo os setores em que podemos criar maior valor para a indústria. Quanto à indústria portuguesa, gostava de a ver três, quatro ou cinco "furos" à frente nas cadeias de valor em que participa, com empresas a desenvolver produtos mais sofisticados, a gerar margens mais elevadas e a criar muito mais valor acrescentado. Na minha perspetiva, o principal problema da nossa indústria não é a produtividade; é o foco no valor da hora de trabalho. E isso só se altera quando deixamos de competir pelo custo e passamos a competir pela proposta de valor. Por exemplo, na metalomecânica, se continuarmos a produzir apenas “a pecinha, o parafuso e a chapinha”, tipicamente, em regime de subcontratação, dificilmente conseguiremos diferenciar-nos. Esses produtos serão sempre comparáveis aos produzidos noutros mercados. Mas, se formos capazes de desenvolver sistemas completos, soluções integradas e produtos próprios, a lógica muda completamente. Deixamos de competir pelo custo-hora para competir pelo conhecimento, pela engenharia e pela inovação. Há exemplos nacionais que mostram que isso é possível. A Polisport deixou de produzir apenas componentes para afirmar as suas próprias cadeiras para bebé. A Logoplaste e a BA Glass não vendem toneladas de plástico ou de vidro; vendem soluções de embalagem e posicionam- -se como parceiros estratégicos dos seus clientes. É esse tipo de evolução que gostaria de ver multiplicado em Portugal. Se tivéssemos o dobro ou o triplo de empresas com este posicionamento, acredito que o país seria diferente. Vejo também sinais muito positivos nas novas gerações de empresários. Enquanto docente, contacto frequentemente com filhos e netos de industriais que têm precisamente essa ambição: passar da peça ao sistema completo. Naturalmente, isso exige investimento em engenharia, desenvolvimento de produto e inovação. Mas acredito que é esse o caminho. Se não o fizermos, continuaremos a competir pelo cêntimo. Se o conseguirmos, passaremos finalmente a competir pelo valor que somos capazes de criar. n

18 INOVAÇÃO Agenda Produtech R3 investe 167,8 milhões de euros em tecnologias para transformar a indústria portuguesa O 3.º Encontro das Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial, promovido pelo IAPMEI no Europarque, em Santa Maria da Feira, reuniu, no dia 25 de junho, os consórcios financiados pelo PRR sob o lema 'A inovação move o País'. Entre os projetos em destaque esteve a Agenda Mobilizadora Produtech R3, que apresentou os principais resultados alcançados e as tecnologias desenvolvidas para apoiar a transformação da indústria portuguesa. Com um investimento global de cerca de 167,8 milhões de euros e uma rede de 106 parceiros, a Agenda prevê o desenvolvimento de 85 novos produtos e serviços, a realização de 52 projetos- -piloto em contexto empresarial para validar novas soluções tecnológicas e a geração de 50 milhões de euros em receitas provenientes da comercialização das inovações desenvolvidas. Os investimentos incidem em áreas estratégicas para a indústria transformadora, como a digitalização, a produção inteligente, a logística e a sustentabilidade. Durante o encontro foram igualmente apresentados os resultados das 51 Agendas Mobilizadoras do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), que envolvem mais de 1.100 entidades, representam 5.400 milhões de euros de investimento elegível e preveem a criação de 11 mil novos empregos qualificados. O impacto esperado no volume de negócios até 2026 ultrapassa os 8 mil milhões de euros, com um contributo estimado para o PIB nacional entre 2,5% e 3%. O evento contou com a presença do ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, da ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, e do secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira. PRODUTECH R3 REÚNE 15 PROGRAMAS TRANSFORMADORES O Pacto de Inovação Produtech R3 está estruturado em 15 programas transformadores, organizados em cinco áreas estratégicas: customização de produtos e produção de proximidade; produção adaptativa, colaborativa e competitiva; sistemas de produção interoperáveis, inteligentes e autónomos; novas tecnologias para a produção e utilização de materiais avançados; e eficiência na utilização de recursos e integração de energias renováveis nos processos produtivos. Os programas promovem o desenvolvimento de novos produtos e serviços para a indústria através da colaboração entre empresas da fileira das tecnologias de produção, empresas dos setores utilizadores e ENESII (Entidades Não Empresariais do Sistema de I&I), procurando acelerar o desenvolvimento tecnológico e a sua aplicação num conjunto alargado de setores industriais. A Agenda integra ainda três programas horizontais dedicados à capacitação e formação, internacionalização e qualificação, bem como dois programas de suporte orientados para a disseminação dos resultados e para a coordenação global da iniciativa.

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