55 DOSSIER | ENERGIA E INFRAESTRUTURAS das mantêm o seu desempenho ao longo de todo esse período. “O desafio para nós é desenvolver especificações que garantam a durabilidade de uma instalação por várias décadas, numa altura em que muitas destas tecnologias ainda estão em evolução”, afirmou. Segundo o responsável, ao contrário de setores maduros, como a refinação ou a indústria petrolífera, muitas das tecnologias associadas ao hidrogénio verde ainda possuem reduzido histórico operacional, obrigando fabricantes, projetistas e fornecedores de revestimentos a trabalhar com maior flexibilidade e capacidade de adaptação. Essa realidade obriga também a abandonar soluções universais. Uma fábrica de hidrogénio reúne equipamentos com funções, temperaturas e ambientes muito distintos, o que significa que cada componente exige uma estratégia própria de proteção anticorrosiva. “Não podemos olhar para estas instalações como um único equipamento. Temos de analisar cada parte da instalação e desenvolver a especificação dos revestimentos tendo isso em consideração”, explicou Mário Apolinário. Estruturas metálicas, tubagens, tanques de armazenamento, eletrolisadores ou equipamentos fornecidos pelos fabricantes apresentam condições de serviço muito diferentes e, por isso, exigem soluções específicas, desde revestimentos para altas temperaturas até sistemas capazes de resistir a ambientes quimicamente agressivos ou proteger estruturas sujeitas ao risco de incêndio. Na captura de carbono, acrescentou, os desafios tornam-se ainda mais complexos. Como muitas destas unidades são instaladas em centrais termoelétricas ou cimenteiras já existentes, torna-se necessário integrar novos processos industriais em infraestruturas antigas, conciliando diferentes condições de operação sem comprometer a durabilidade dos equipamentos. O objetivo, resumiu, é garantir ciclos de vida longos, baixa necessidade de manutenção e, consequentemente, maior sustentabilidade das próprias instalações. Se a proteção dos materiais constitui uma primeira linha de defesa, a sua validação representa a segunda. Foi precisamente esse o foco da intervenção de Ana Azevedo, técnica superior do CATIM, que recordou que a corrosão continua a representar perdas equivalentes a cerca de 3% a 4% do Produto Interno Bruto, embora uma parte significativa desses custos possa ser evitada através da aplicação atempada de medidas preventivas. “A corrosão está presente no nosso quotidiano. Apesar de ser um processo relativamente fácil de identificar, ainda existe muito desconhecimento sobre o fenómeno e sobre a forma como pode ser gerido”, afirmou. A investigadora recordou que conhecer o material, compreender o ambiente onde irá operar e antecipar as condições reais de serviço são fatores essenciais para prolongar a vida útil dos equipamentos. Nesse processo, os ensaios laboratoriais assumem um papel central. Mais do que verificar se um revestimento cumpre requisitos técnicos, permitem antecipar mecanismos de degradação, comparar soluções e apoiar decisões ainda antes da entrada em funcionamento das infraestruturas. “Ensaiar não é gastar dinheiro; é antecipar falhas”, resumiu Ana Azevedo. Para a especialista, a normalização internacional e os ensaios acelerados de corrosão constituem hoje ferramentas indispensáveis para aumentar a fiabilidade dos materiais e reduzir custos futuros de manutenção. “As normas servem essencialmente para nos dar confiança e comparabilidade entre resultados”, acrescentou. NOVAS EXIGÊNCIAS AOS MATERIAIS Mas os desafios não terminam na produção de hidrogénio. À medida que a transição energética acelera, também as energias renováveis colocam novas exigências aos materiais, sobretudo quando as infraestruturas operam em ambientes particularmente agressivos. Teresa Diamantino, do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG), defendeu que a durabilidade deverá ser encarada como um fator tão importante como a própria produção de energia, sobretudo agora em que o aquecimento global está a acelerar e a aposta nas renováveis se intensifica, pelo que a corrosão pode comprometer o desempenho de tecnologias tão diversas como painéis fotovoltaicos, centrais solares de concentração, parques eólicos offshore ou sistemas de armazenamento de energia. “A principal mensagem é que o desafio da corrosão vai condicionar o futuro das energias renováveis. Não basta produzir energia, é preciso garantir que as infraestruturas conseguem resistir aos ambientes onde estão instaladas”, afirmou. Segundo a investigadora, essa resposta começa pelo conhecimento rigoroso dos ambientes de exposição. Salinidade, humidade, radiação ultravioleta, temperatura, ação das ondas ou crescimento biológico influenciam de forma decisiva a degradação dos materiais e exigem estratégias específicas de proteção. “Temos de conhecer os ambientes para sabermos como proteger os materiais”, sintetizou, lembrando que Portugal, enquanto país com uma extensa faixa costeira, enfrenta condições particularmente exigentes para muitas destas infraestruturas. Teresa Diamantino alertou ainda para a necessidade de acelerar o desenvolvimento de normas técnicas e de reforçar a investigação aplicada. Em muitas tecnologias emergentes, explicou, a inovação industrial está a avançar mais depressa do que a produção de conhecimento sobre corrosão e durabilidade, tornando essencial investir simultaneamente em novos materiais, sistemas de monitorização, sensores e metodologias de ensaio capazes de acompanhar a evolução da transição energética. n
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