54 DOSSIER | ENERGIA E INFRAESTRUTURAS Mas esta transformação tecnológica traz igualmente novos desafios ao nível da durabilidade das infraestruturas. Ricardo Simões defendeu que a monitorização contínua dos ativos terá de substituir uma lógica assente apenas em inspeções periódicas, recorrendo a ferramentas digitais capazes de antecipar problemas antes de estes se manifestarem. “Temos de começar a fazer mais manutenção preditiva. Isso obriga-nos a ter capacidades de simulação e previsão. A inteligência artificial pode ser um aliado importante, permitindo acompanhar toda a vida útil de um sistema e prever melhor os fenómenos físicos e químicos que nele ocorrem”, afirmou. Para o responsável da CCDR Norte, esta evolução implica também uma mudança cultural. A corrosão, defendeu, não pode continuar confinada às equipas de engenharia. “Tem de entrar também no discurso da economia, da gestão de projetos e da gestão das infraestruturas. É um tema transversal que exige competências muito diversas”. Essa visão foi desenvolvida na primeira apresentação técnica da tarde por Nicolás Larrosa, professor associado da Universidade de Bristol, que centrou a sua intervenção num dos temas mais críticos da nova economia energética: o impacto do hidrogénio no comportamento dos materiais. O investigador começou por enquadrar o forte investimento europeu nesta tecnologia, recordando que a União Europeia pretende aumentar significativamente a produção de hidrogénio renovável na próxima década, mobilizando milhares de milhões de euros em infraestruturas de produção, transporte e armazenamento. Contudo, alertou que esta aposta tecnológica levanta um desafio muitas vezes menos visível: a interação entre o hidrogénio e os materiais metálicos utilizados nessas infraestruturas. Ao contrário da molécula de hidrogénio, explicou, o hidrogénio atómico consegue penetrar na estrutura cristalina dos metais, alterando profundamente o seu comportamento mecânico. Embora os materiais mantenham, em muitos casos, a sua resistência nominal, tornam-se significativamente mais frágeis, reduzindo a sua capacidade para absorver deformações e aumentando o risco de roturas frágeis e falhas catastróficas. “Alguns materiais são muito mais suscetíveis do que outros. Por isso, a seleção dos materiais torna-se absolutamente crítica quando falamos de infraestruturas para hidrogénio”, salientou. Os estudos apresentados pela equipa da Universidade de Bristol mostram ainda que a presença de hidrogénio acelera os processos de corrosão, reduz a estabilidade das camadas passivas de proteção e altera significativamente o comportamento dos materiais sujeitos a fadiga mecânica. Segundo Nicolás Larrosa, estes efeitos obrigam a repensar tanto a escolha dos materiais como o desenvolvimento de novos revestimentos, inibidores de corrosão e estratégias de proteção capazes de garantir a fiabilidade das futuras infraestruturas dedicadas ao hidrogénio. A PROTEÇÃO DAS SUPERFÍCIES A resposta começa, desde logo, pela proteção das superfícies. Se o hidrogénio, a captura de carbono ou os novos processos industriais colocam materiais e equipamentos perante ambientes mais agressivos, então a durabilidade das infraestruturas depende, cada vez mais, da capacidade de selecionar revestimentos adequados logo na fase de projeto. Foi esta a perspetiva apresentada por Mário Apolinário, da AkzoNobel, que acompanha há vários anos projetos internacionais ligados ao hidrogénio verde e à captura de carbono. O especialista explicou que o grande desafio não passa apenas por desenvolver novos produtos, mas por garantir que instalações concebidas para funcionar durante várias décaInfraestrutura de uma fábrica de hidrogénio. Autor: Mário Apolinário, AkzoNobel.
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