BM30 - InterMETAL

52 DOSSIER | ENERGIA E INFRAESTRUTURAS consumo nas suas unidades industriais, reduzindo as emissões associadas à atividade produtiva e reforçando o alinhamento com as novas exigências do mercado. DIGITALIZAÇÃO DEIXA DE SER OPCIONAL A transformação tecnológica está a mudar profundamente a forma como as empresas produzem e competem. Para o CATIM, a digitalização deixou de ser apenas uma ferramenta de eficiência para se tornar um fator determinante de competitividade nos novos mercados energéticos e industriais. Sensores inteligentes, sistemas ciberfísicos, inteligência artificial, robótica colaborativa, gémeos digitais e plataformas avançadas de monitorização permitem aumentar a produtividade, otimizar recursos e reforçar o controlo dos processos produtivos. Mas os benefícios vão além da eficiência. Num mercado cada vez mais exigente, a capacidade de garantir rastreabilidade e disponibilizar informação fiável sobre materiais, produtos e processos tornou-se um requisito essencial. “Os clientes querem saber mais sobre a origem dos materiais, o desempenho dos produtos e a conformidade dos processos”, sintetiza o CATIM. Ao facilitar auditorias, certificações e processos de validação, as tecnologias digitais reforçam a confiança dos mercados e ajudam as empresas portuguesas a integrarem-se em cadeias de fornecimento internacionais cada vez mais exigentes. Para consolidar a posição da metalomecânica nacional nas cadeias de valor europeias, o centro tecnológico aponta três prioridades: reforçar a digitalização e a automação inteligente, desenvolver competências avançadas de ensaio e validação tecnológica e investir em novos materiais e processos orientados para a descarbonização, a eficiência energética, a economia circular e o hidrogénio. O CATIM atribui igualmente um papel central aos Centros de Tecnologia e Inovação. À medida que os projetos ligados à energia, ao hidrogénio e às infraestruturas ganham complexidade, a aproximação da investigação e da aplicação industrial – através de ensaios, metrologia, caracterização de materiais, inspeção e validação tecnológica – torna-se um fator diferenciador para reduzir risco e acelerar a inovação. Rafael Campos Pereira considera que o setor tem de continuar a investir em automação, digitalização e desenvolvimento tecnológico para subir na cadeia de valor. Defende também uma colaboração mais estreita entre empresas, universidades e centros tecnológicos. O objetivo, diz, é que a indústria participe mais cedo na conceção dos projetos e se afirme cada vez mais “como parceiro tecnológico da descarbonização e da modernização das infraestruturas”: “Um excelente exemplo do sucesso desta cooperação triangular é a Agenda Mobilizadora Produtech R3, que reúne 106 parceiros, entre os quais a AIMMAP, e da qual têm emergido dezenas de novas soluções também nesta área”, sublinha. O dirigente destaca ainda o investimento em novas infraestruturas tecnológicas de apoio à indústria. Entre elas encontra-se o futuro laboratório de ensaios de eficiência energética e ecodesign do CATIM, concebido para apoiar as empresas em domínios estratégicos como a economia do hidrogénio, a digitalização e a economia circular. COMPETIR NUM MERCADO GLOBAL CADA VEZ MAIS EXIGENTE As oportunidades são significativas, mas os desafios continuam a ser numerosos. A escassez de mão de obra qualificada permanece entre os principais constrangimentos ao crescimento da indústria. A estas dificuldades juntam-se os custos energéticos, a pressão sobre as margens e a necessidade de investir continuamente em tecnologia para acompanhar a evolução dos mercados. A concorrência internacional é outro dos temas que preocupa o setor. A Metalogalva aponta aquilo que considera ser uma falta de coerência entre os objetivos de reindustrialização da Europa e as regras do comércio internacional, defendendo uma maior proteção da indústria transformadora europeia. “A diferenciação portuguesa tem de vir da engenharia, da qualidade e da capacidade de resposta. Pela via do preço, sozinhos, não competimos”, sublinha. A mesma preocupação é partilhada pela AIMMAP, que defende um maior alinhamento entre as políticas industriais europeias e os instrumentos comerciais, de forma a evitar desvantagens competitivas para os produtores europeus. Ainda assim, o tom dominante é de confiança. A reconfiguração das cadeias de abastecimento, a procura por maior autonomia industrial e o investimento associado ao novo paradigma energético estão a criar potencial que poucas vezes surge numa mesma geração. “Temos competências técnicas, conhecimento e experiência exportadora para assumir um papel muito mais relevante”, sustenta Rafael Campos Pereira. Na sua perspetiva, o desafio passa agora por transformar essas competências em maior valor acrescentado e participação nos grandes projetos que estão a redesenhar o setor energético europeu. O dirigente acredita que a metalomecânica portuguesa reúne condições para “deixar de ser vista apenas como fornecedora de fabrico e montagem, passando a afirmar-se cada vez mais como parceira tecnológica da transição energética e da modernização das infraestruturas”. Essa mudança já começou. E poderá representar uma das maiores oportunidades de crescimento da indústria portuguesa na próxima década. n

RkJQdWJsaXNoZXIy Njg1MjYx