ENTREVISTA 15 A reindustrialização europeia só será possível se for acompanhada por uma forte aposta na inovação. Não podemos reconstruir a indústria com os modelos produtivos de há trinta anos. Precisamos de automação, digitalização, inteligência artificial, novos materiais e tecnologias avançadas. Sem isso, simplesmente não conseguiremos competir. Ganhar escala é, portanto, um dos principais desafios europeus? Sim, a escala é determinante. Para sermos realmente competitivos numa determinada tecnologia temos de trabalhar nessa área durante muitos anos, desenvolver competências muito especializadas e produzir em quantidade suficiente para ganhar eficiência. É precisamente isso que explica parte do sucesso de outras geografias. Nos Estados Unidos, por exemplo, existe uma enorme capacidade para transformar rapidamente uma inovação numa empresa global. Na Europa esse processo continua a ser demasiado lento, ou mesmo inexistente. Mas temos de fazer escolhas. Não podemos querer liderar todas as tecnologias. Portugal, em particular, deve concentrar-se nos domínios onde já tem competências relevantes e onde consiga criar massa crítica suficiente para competir internacionalmente. A área da defesa poderá ser uma dessas apostas? Pode ser, mas apenas integrada numa estratégia europeia. A defesa é um excelente exemplo de um setor onde nenhum país europeu, especialmente um país da dimensão de Portugal, consegue atuar isoladamente. Temos de participar em programas internacionais, cooperar com outros Estados e integrar cadeias de fornecimento europeias. Ao mesmo tempo, é essencial escolher nichos tecnológicos onde possamos ser realmente diferenciadores. Os drones são um bom exemplo. O INEGI acompanha esta área praticamente desde o início e participou nos primeiros projetos desenvolvidos pela Tekever em Portugal. Também temos competências consolidadas em materiais compósitos e sistemas de condução autónoma. Mas não podemos querer desenvolver todas as tecnologias ligadas à defesa. É muito mais eficaz concentrar e especializar recursos nas áreas em que temos maiores competências. No futuro, o financiamento europeu continuará a ser um dos principais motores da investigação aplicada ou será necessário encontrar novos modelos de financiamento? O financiamento continuará a ser importante, mas não pode ser o principal motor do sistema. No INEGI sempre defendemos um modelo equilibrado, assente em três pilares: financiamento competitivo nacional e europeu, financiamento base e projetos contratados diretamente pela indústria. Entre 40% e 50% do nosso volume de negócios resulta precisamente de trabalho diretamente contratualizado por empresas. Se assim não fosse, deixaríamos de cumprir a nossa missão enquanto centro de tecnologia e inovação. O financiamento público deve servir para reduzir risco tecnológico e acelerar a inovação, mas não substitui o mercado. O verdadeiro desafio começa quando uma tecnologia está pronta para ser industrializada e comercializada. Nessa fase já não é o financiamento público que faz a diferença; é a capacidade de mobilizar capital privado. E é aqui que a Europa e Portugal continuam a revelar fragilidades. Somos muito competentes a financiar investigação e desenvolvimento, mas continuamos a ter dificuldade em financiar o crescimento das empresas tecnológicas. Muitas vezes desenvolvemos a tecnologia, assumimos o risco inicial e, quando chega o momento da industrialização, é outro país/região que cria valor económico a partir desse conhecimento. Precisamos de mecanismos que permitam reter esse valor na Europa. Portugal tem evoluído nesse domínio? Sim. O ecossistema nacional de inovação amadureceu muito nos últimos anos. Hoje existem mais startups, mais empreendedorismo e uma cultura empresarial muito mais aberta à inovação. Mas existe uma diferença importante entre criar uma startup de software e desenvolver uma startup industrial ou tecnológica. Quando falamos de novos materiais, biotecnologia ou equipamentos industriais, os investimentos necessários são incomparavelmente maiores. São projetos mais longos, mais exigentes e sujeitos a certificações complexas. Nesses casos, será fundamental criar instrumentos financeiros que permitam partilhar risco entre investidores privados e políticas públicas, facilitando a passagem da inovação para o mercado. No fundo, o objetivo deve ser reforçar um ecossistema onde conhecimento científico, indústria, investimento e empreendedorismo funcionem de forma integrada.
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