ENTREVISTA 16 Considerando a sua experiência nas áreas da logística e das cadeias de abastecimento, como avalia o impacto da atual conjuntura geopolítica na indústria portuguesa? A conjuntura internacional introduziu novos fatores de incerteza, mas considero que o impacto real tem sido menos dramático do que muitas vezes é transmitido. Ao longo das últimas décadas, a economia mundial especializou-se profundamente. Há empresas e países que desenvolveram competências muito específicas em determinadas tecnologias ou componentes, e essas capacidades não podem ser transferidas de um continente para outro em poucos meses por decisão política. Naturalmente, as tarifas, os conflitos e as restrições comerciais obrigam as empresas a adaptarem-se, diversificar mercados e procurar fornecedores alternativos. Mas dificilmente inverterão, no curto prazo, décadas de especialização industrial. O mais importante é reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento. As empresas devem diversificar mercados, estabelecer relações mais duradouras com clientes e fornecedores e reduzir a dependência de soluções oportunistas. Paradoxalmente, os últimos anos também deixaram uma aprendizagem positiva. Depois da pandemia, das tensões geopolíticas e das alterações nas cadeias logísticas, a indústria está hoje muito mais preparada para gerir contextos de instabilidade do que estava há cinco anos. Os materiais surgem frequentemente nas suas intervenções como uma das grandes prioridades do futuro. Onde identifica as maiores oportunidades para a engenharia dos materiais? Os materiais serão um dos principais motores da inovação industrial nas próximas décadas. A procura dirige-se cada vez mais para soluções mais leves, mais resistentes, mais sustentáveis, recicláveis e energeticamente eficientes. Para desenvolver produtos com maior valor acrescentado será indispensável recorrer a materiais com características cada vez mais avançadas. Portugal não é um país rico em matérias-primas, pelo que a nossa competitividade não passará pela extração, mas pela capacidade de transformar materiais em produtos sofisticados e tecnologicamente diferenciadores. No INEGI trabalhamos precisamente nessa lógica. Somos grandes utilizadores de materiais avançados e procuramos aplicá-los em setores onde possam gerar maior valor para a indústria, da mobilidade à aeronáutica, passando pela energia, pelos equipamentos industriais ou pelos têxteis técnicos. Quando falamos de materiais falamos também de biomateriais. Portugal poderá ter aí uma oportunidade? Sem dúvida. Portugal tem uma importante fileira florestal e isso representa uma oportunidade muito interessante para o desenvolvimento de materiais de base biológica. Instalações do INEGI no Porto.
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