ENTREVISTA 17 Mas os biomateriais colocam também novos desafios de engenharia. Ao contrário dos materiais metálicos tradicionais e muito como os compósitos, exigem processos específicos de formulação, combinação e transformação para obter as propriedades pretendidas. No INEGI temos vindo a reforçar competências nesta área, integrando especialistas em engenharia química e engenharia de materiais, precisamente para responder a estes desafios. No entanto, o nosso principal foco continua a ser nos compósitos, e também a sua reciclagem, reutilização e sustentabilidade. É uma área onde existe ainda um enorme potencial de desenvolvimento. Existe algum projeto que simbolize particularmente bem aquilo que o INEGI representa ao fim de quatro décadas? É sempre difícil escolher apenas um ou dois projetos entre milhares de iniciativas desenvolvidas ao longo destes 40 anos. Há, no entanto, alguns casos particularmente simbólicos. Recordo, por exemplo, os primeiros esquentadores inteligentes desenvolvidos em parceria com a Bosch, nos anos 1990, 2000. Do trabalho conjunto resultou uma linha completa de produtos verdadeiramente inovadores. Hoje, a Bosch tem cá o seu próprio centro de investigação e desenvolvimento, com mais de 200 pessoas. É um ótimo exemplo do que o INEGI pode fazer por uma empresa ou por um setor. Outro marco importante foi o desenvolvimento da garrafa Pluma. Este caso é muito interessante porque conseguimos criar uma tecnologia que, atualmente, tem diversas aplicações, desde o armazenamento de gases de altíssima pressão, super-comprimidos, em depósitos muito pequenos, ao fabrico de reservatórios de ‘nível 5’, os mais avançados do mundo, para aplicações espaciais. Mas, mais do que um projeto específico, aquilo que verdadeiramente distingue o INEGI é a capacidade de ajudar a transformar conhecimento científico em inovação com impacto económico, em parceria com as empresas. Acredito que isso é muito mais importante do que produzir papers ou artigos científicos. Daqui a dez anos, quando o INEGI celebrar meio século de existência, que país e que indústria gostaria de encontrar? E que papel espera que o Instituto continue a desempenhar nessa altura? Gostaria de poder dizer que o INEGI teve um impacto verdadeiramente significativo na indústria e no país. Acredito que, cada vez mais, a qualidade do trabalho desenvolvido em ciência, tecnologia e inovação será medida pelo impacto que consegue gerar na indústria e, sobretudo, na vida das pessoas. No final, é isso que realmente importa. É com esse objetivo que estamos a preparar o futuro, definindo os nossos roadmaps tecnológicos, identificando as áreas onde faz mais sentido concentrar a investigação e escolhendo os setores em que podemos criar maior valor para a indústria. Quanto à indústria portuguesa, gostava de a ver três, quatro ou cinco "furos" à frente nas cadeias de valor em que participa, com empresas a desenvolver produtos mais sofisticados, a gerar margens mais elevadas e a criar muito mais valor acrescentado. Na minha perspetiva, o principal problema da nossa indústria não é a produtividade; é o foco no valor da hora de trabalho. E isso só se altera quando deixamos de competir pelo custo e passamos a competir pela proposta de valor. Por exemplo, na metalomecânica, se continuarmos a produzir apenas “a pecinha, o parafuso e a chapinha”, tipicamente, em regime de subcontratação, dificilmente conseguiremos diferenciar-nos. Esses produtos serão sempre comparáveis aos produzidos noutros mercados. Mas, se formos capazes de desenvolver sistemas completos, soluções integradas e produtos próprios, a lógica muda completamente. Deixamos de competir pelo custo-hora para competir pelo conhecimento, pela engenharia e pela inovação. Há exemplos nacionais que mostram que isso é possível. A Polisport deixou de produzir apenas componentes para afirmar as suas próprias cadeiras para bebé. A Logoplaste e a BA Glass não vendem toneladas de plástico ou de vidro; vendem soluções de embalagem e posicionam- -se como parceiros estratégicos dos seus clientes. É esse tipo de evolução que gostaria de ver multiplicado em Portugal. Se tivéssemos o dobro ou o triplo de empresas com este posicionamento, acredito que o país seria diferente. Vejo também sinais muito positivos nas novas gerações de empresários. Enquanto docente, contacto frequentemente com filhos e netos de industriais que têm precisamente essa ambição: passar da peça ao sistema completo. Naturalmente, isso exige investimento em engenharia, desenvolvimento de produto e inovação. Mas acredito que é esse o caminho. Se não o fizermos, continuaremos a competir pelo cêntimo. Se o conseguirmos, passaremos finalmente a competir pelo valor que somos capazes de criar. n
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