OPINIÃO 46 Depois do automóvel: para onde vai a chapa portuguesa? Ricardo Ferreira, diretor-geral da Mecânica Exacta Há mais de vinte anos que acompanho, do lado comercial, o dia a dia das estampadoras e conformadoras de chapa portuguesas, os nossos clientes. E há um padrão que se repete há demasiado tempo: a esmagadora maioria vive de dois destinos, componentes para automóvel e para a indústria das duas rodas. Nos últimos meses, essa conversa mudou de tom. Já não se fala apenas de preço ou de prazos de entrega, fala-se de para onde diversificar. Não é uma perceção isolada. Dados recentes da CLEPA, associação europeia de fornecedores automóveis, apontam que um em cada quatro fornecedores prevê terminar 2026 no vermelho, com mais de cem mil postos de trabalho eliminados na cadeia de fornecimento europeia entre 2024 e 2025. Do lado das duas rodas, a fileira portuguesa bateu recorde de exportações em 2025, mas as vendas de componentes específicos continuam a cair e o setor mantém forte dependência de peças importadas, motivo pelo qual a própria agenda mobilizadora do setor tem como objetivo reduzir essa dependência asiática. Ou seja, mesmo quem não sente diretamente a crise automóvel sente uma pressão parecida. O QUE OUÇO FALAR-SE, CADA VEZ MAIS, NAS VISITAS A CLIENTES Não sou engenheiro de energia, nem pretendo falar como quem conhece esse setor por dentro. Mas há uma coisa que qualquer pessoa ligada à metalomecânica portuguesa já não pode ignorar: Sines deixou de ser assunto de petroquímica e tornou-se, aos poucos, sinónimo de investimento industrial em larga escala, com energias renováveis, hidrogénio, baterias e data centers. Esta revista já tem acompanhado esse crescimento com mais detalhe do que eu seria capaz de dar aqui. O que me interessa, como fornecedor de equipamento a quem corta e estampa chapa, é uma pergunta mais prática: o que é que este tipo de investimento representa para os nossos clientes? A resposta, pelo que tenho ouvido e visto, não está no equipamento pesado. Parques solares, eólicos, unidades de hidrogénio ou data centers precisam de estruturas de suporte, calhas de cablagem, invólucros técnicos, quadros elétricos, painéis e coberturas metálicas, ventilação e proteção de equipamento. É um mercado menos visível do que a obra principal, mas com volume real, e onde a experiência acumulada no automóvel e nas duas rodas (rigor dimensional, repetibilidade, cumprimento de prazos) é uma vantagem concreta para quem se atrever a bater à porta destes novos clientes. A isto soma-se um argumento que já não é só de sustentabilidade: a discussão europeia em torno de conteúdo mínimo europeu em setores estratégicos, motivada por episódios recentes de fragilidade nas cadeias de abastecimento vindas da Ásia, favorece quem consegue produzir estes componentes perto do cliente final.
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