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Informação profissional para a indústria metalomecânica portuguesa
Energia, redes e grandes obras impulsionam uma nova fase da indústria nacional

Transição energética e grandes infraestruturas: a metalomecânica na linha da frente da nova vaga de investimento

Marta Clemente20/07/2026
A transição energética, a modernização das redes elétricas, o desenvolvimento do hidrogénio renovável e os investimentos previstos em ferrovia, portos e infraestruturas industriais estão a abrir uma nova etapa para a metalomecânica portuguesa. Mais do que fornecedoras de componentes, as empresas nacionais procuram afirmar-se como parceiras estratégicas em projetos cada vez mais exigentes, onde a engenharia, a capacidade de inovação, a certificação e a sustentabilidade se tornam fatores decisivos para competir nas cadeias de valor europeias e globais.
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Ao longo da última década, a indústria metalomecânica portuguesa consolidou uma posição relevante em diversos mercados internacionais, apoiada na sua capacidade produtiva, na flexibilidade industrial e numa crescente aposta na engenharia. Agora, a aceleração dos investimentos associados à transição energética e à reindustrialização europeia está a criar um novo contexto de crescimento.

O fenómeno é visível em praticamente todos os segmentos ligados à energia e às infraestruturas. A expansão das energias renováveis, o reforço das redes elétricas, os projetos de armazenamento de energia, o desenvolvimento do hidrogénio renovável, a modernização ferroviária e a renovação de infraestruturas críticas exigem uma enorme quantidade de estruturas metálicas, equipamentos industriais, sistemas de suporte, reservatórios, tubagens, componentes maquinados e soluções eletromecânicas.

Mas as exigências do mercado já não se limitam ao fornecimento de produtos. Hoje, os grandes promotores e operadores valorizam empresas capazes de intervir desde as fases de conceção até à execução e manutenção dos projetos. É precisamente nesse ponto que a metalomecânica portuguesa procura reforçar o seu posicionamento.

Segundo Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), a indústria nacional neste ramo ocupa atualmente uma posição central nas cadeias de valor ligadas à energia e às infraestruturas. “Em Portugal, é um setor essencial para transformar investimento em capacidade instalada: redes elétricas, renováveis, equipamentos industriais, estruturas metálicas, manutenção, montagem e soluções à medida”, afirma. O responsável lembra que os acontecimentos recentes demonstraram a importância de dispor de capacidade industrial instalada para responder rapidamente a situações críticas. As tempestades que afetaram infraestruturas energéticas no último inverno ilustraram o papel na manutenção, reparação e reposição atempada de equipamentos.

Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da AIMMAP
Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da AIMMAP.

Redes elétricas: mercado que está a crescer em silêncio

Embora a atenção mediática recaia frequentemente sobre os grandes parques solares, eólicos ou – os mais recentes – projetos de hidrogénio, muitos especialistas consideram que as redes elétricas constituem uma das maiores oportunidades para a indústria metalomecânica na próxima década. A eletrificação da economia implica investimentos massivos em linhas de transporte, subestações, postos de transformação e sistemas de distribuição capazes de acomodar volumes crescentes de produção renovável.

Na visão da AIMMAP, o reforço, a digitalização e a modernização das redes elétricas constituem atualmente uma das áreas com maior potencial de crescimento para as empresas nacionais.

A experiência da Metalogalva confirma esta tendência. A empresa refere ter registado um aumento significativo da procura impulsionado pelos investimentos em redes de transmissão e distribuição de energia, telecomunicações e energias renováveis.

Nos últimos anos, o grupo participou em diversos projetos internacionais de grande dimensão, incluindo um contrato de 48 milhões de euros associado à transmissão de energia entre a Dinamarca e a Alemanha. Paralelamente, reforçou, em 2023, a sua presença industrial nos Estados Unidos através da expansão da MSS Steel Tubes para duas novas localizações, criando capacidade adicional para responder à crescente procura de componentes destinados às infraestruturas energéticas.

Tal como refere António Pedro, administrador da empresa, existe atualmente uma procura particularmente elevada por estruturas para redes de transmissão de grande capacidade e por postes tubulares destinados a infraestruturas críticas. Neste âmbito, “os clientes valorizam sobretudo as competências de engenharia própria, o desenvolvimento de soluções estruturais adaptadas às necessidades específicas de cada projeto e o cumprimento dos calendários de execução cada vez mais exigentes”, é esclarecido.

À parte da energia, o potencial estende-se também às infraestruturas de transporte e logística. Segundo a AIMMAP, projetos associados à modernização ferroviária, à construção de pontes, plataformas logísticas e infraestruturas industriais vão igualmente gerar aumento da procura por estruturas metálicas, equipamentos especializados e serviços de engenharia.

António Pedro, administrador da Metalogalva
António Pedro, administrador da Metalogalva.

Renováveis geram oportunidade sem precedentes

A Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN) entende que o atual ciclo de investimento em energias renováveis representa uma oportunidade histórica para a indústria nacional.

Para a associação, não está apenas em causa a instalação de novos parques solares e eólicos. O crescimento das renováveis exige uma extensa cadeia de fornecimento que inclui estruturas metálicas, componentes para subestações, sistemas de armazenamento, equipamentos de suporte, montagem, manutenção e serviços especializados de engenharia.

O Plano Nacional Energia e Clima (PNEC 2030) prevê atingir cerca de 20,8 GW de capacidade solar fotovoltaica, 12,2 GW de energia eólica e 5,4 GW de armazenamento até 2030. Estas metas traduzem-se na necessidade de “instalar vários gigawatts adicionais de fontes renováveis, construir novas infraestruturas, reforçar significativamente as redes elétricas e desenvolver soluções de armazenamento capazes de integrar mais energia renovável no sistema”.

A APREN destaca paralelamente o impacto económico já gerado pelo setor. De acordo com o ‘Estudo de Impacto das Energias Renováveis em Portugal’, desenvolvido pela EY-Parthenon para a associação, estas contribuíram com 5,34 mil milhões de euros para o PIB português em 2024 – mais de 1% da economia nacional –, podendo ultrapassar os 32 mil milhões de euros anuais até 2040, ou seja, um potencial de crescimento de 370%.

Este crescimento tem reflexos diretos na atividade industrial. Quanto maior for a incorporação de fornecedores nacionais nas cadeias de valor das renováveis, maior será o impacto em emprego - com uma previsão de crescimento superior a 400% até 2040 –, inovação tecnológica, exportações e desenvolvimento industrial.

A associação salienta que Portugal reúne atualmente condições para afirmar a sua indústria metalomecânica como um parceiro estratégico da transformação energética europeia, desde que exista estabilidade regulatória, continuidade dos investimentos e reforço da capacidade e estabilidade das redes.

Hidrogénio: mercado por conquistar

Se as energias renováveis já estão a gerar negócios concretos para a indústria, o hidrogénio surge como um mercado emergente onde a metalomecânica portuguesa pode conquistar uma posição relevante desde uma fase inicial.

José João Campos Rodrigues, presidente da direção da Associação Portuguesa para a Promoção do Hidrogénio (AP2H2), considera que muitas empresas ainda não avaliaram plenamente o potencial económico associado a este setor. “A indústria [metalomecânica] não olhou muito para o hidrogénio como oportunidade de investimento”, afirma. Na sua opinião, o hidrogénio continua a ser frequentemente encarado apenas como um combustível alternativo, quando existe uma vasta cadeia de valor associada à sua produção, armazenamento, transporte e utilização.

O responsável identifica três grandes segmentos desta fileira: os eletrolisadores, as pilhas de combustível e os sistemas de armazenamento. Todos eles podem gerar oportunidades para a indústria metalomecânica nacional, embora com diferentes níveis de participação.

A mais imediata encontra-se, segundo o presidente da AP2H2, no armazenamento de hidrogénio: reservatórios sob pressão, condutas, tubagens e outros sistemas destinados ao transporte de gases são áreas em que a indústria portuguesa dispõe de experiência consolidada, ainda que algumas aplicações exijam adaptações específicas devido às características do hidrogénio, nomeadamente em matéria de pressão e segurança.

No caso dos eletrolisadores, José João Campos Rodrigues considera que o potencial económico pode ser ainda mais expressivo. “Um eletrolisador tem um valor de mercado que ronda os dois milhões de euros por megawatt, mas a componente tecnológica própria representa no máximo um terço desse valor”, explica. Uma parte significativa dos restantes equipamentos necessários – como motores, sistemas de pressurização, compressores, sistemas de proteção e diversos componentes auxiliares – “pode ser fabricado e fornecido pela indústria portuguesa”, sublinha.

O presidente da AP2H2 recorda ainda que o Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) prevê cerca de 3 GW de capacidade de eletrólise. Caso estas metas se concretizem, pode traduzir-se em investimentos na ordem dos seis mil milhões de euros em eletrolisadores e equipamentos associados, criando um mercado de dimensão significativa para fabricantes nacionais de componentes, sistemas auxiliares e equipamentos industriais.

Como referido, para José João Campos Rodrigues, o principal obstáculo ao aproveitamento destas oportunidades não reside no know-how técnico das empresas portuguesas, mas no desconhecimento do mercado. “Acho que ainda não estudaram o negócio”, resume.

Para inverter esta situação, a AP2H2 tem vindo a promover ações de formação dirigidas a gestores, quadros e decisores empresariais, destinadas a dar a conhecer as tecnologias, os modelos de negócio e as perspetivas de desenvolvimento relacionadas com o setor. A associação está a preparar uma nova edição do curso de introdução à fileira do hidrogénio, com início previsto para outubro. Na perspetiva do responsável, trata-se de uma “iniciativa particularmente útil para empresas que pretendam avaliar o potencial deste mercado e identificar oportunidades de investimento”.

Imagem gerada por inteligência artificial
Imagem gerada por inteligência artificial.

Certificação, rastreabilidade e sustentabilidade tornaram-se fatores de competitividade

Se há alguns anos as certificações eram vistas sobretudo como requisitos formais, hoje são uma condição indispensável para participar em projetos internacionais. A crescente complexidade das infraestruturas energéticas e industriais elevou significativamente o nível de exigência imposto aos fornecedores, tornando a demonstração de qualidade, segurança e desempenho um fator determinante de acesso ao mercado.

Para o Centro de Apoio Tecnológico à Indústria Metalomecânica (CATIM), esta evolução está a transformar a forma como as empresas se posicionam nos mercados globais. A expansão das energias renováveis, das redes elétricas inteligentes, do hidrogénio e de outras infraestruturas críticas trouxe consigo requisitos técnicos cada vez mais exigentes.

Como explica Vânia Pacheco, responsável da Unidade de Projetos e Comunicação do CATIM, a competitividade já não depende apenas da aptidão produtiva ou do preço. “O acesso aos mercados está cada vez mais associado à capacidade de demonstrar, com evidência técnica, que produtos e processos cumprem elevados padrões de qualidade, segurança, desempenho e sustentabilidade.”

A responsável destaca que a qualificação de processos especiais de soldadura, a certificação dos sistemas de gestão, a rastreabilidade dos materiais, os ensaios mecânicos e não destrutivos, o controlo metrológico e o cumprimento dos referenciais normativos assumem hoje um papel central na garantia da fiabilidade dos equipamentos. Em setores onde os ativos são concebidos para operar durante décadas, muitas vezes em ambientes exigentes, estes requisitos deixaram de ser meras obrigações regulamentares para se tornarem verdadeiros fatores de diferenciação.

A sustentabilidade é outra dimensão que ganhou peso nas decisões de compra e qualificação de fornecedores. Impulsionadas pelo CBAM (Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço da União Europeia), que entrou na sua fase definitiva em janeiro de 2026, e pela crescente valorização do chamado “aço verde”, as exigências dos clientes estendem-se hoje a toda a cadeia de valor.

“As certificações de qualidade e segurança são hoje uma condição de entrada nos mercados internacionais, e não apenas um fator diferenciador”, refere a Metalogalva. A empresa observa que critérios como a origem das matérias-primas, a pegada carbónica dos produtos, o desempenho ambiental dos processos produtivos e a rastreabilidade das emissões estão a ganhar uma importância crescente. “Temos assistido também a um aumento dos pedidos de declarações ambientais de produto (EPD)”, acrescenta.

Para acompanhar esta evolução, a Metalogalva investiu recentemente em cinco centrais solares para autoconsumo nas suas unidades industriais, reduzindo as emissões associadas à atividade produtiva e reforçando o alinhamento com as novas exigências do mercado.

Digitalização deixa de ser opcional

A transformação tecnológica está a mudar profundamente a forma como as empresas produzem e competem. Para o CATIM, a digitalização deixou de ser apenas uma ferramenta de eficiência para se tornar um fator determinante de competitividade nos novos mercados energéticos e industriais.

Sensores inteligentes, sistemas ciberfísicos, inteligência artificial, robótica colaborativa, gémeos digitais e plataformas avançadas de monitorização permitem aumentar a produtividade, otimizar recursos e reforçar o controlo dos processos produtivos. Mas os benefícios vão além da eficiência. Num mercado cada vez mais exigente, a capacidade de garantir rastreabilidade e disponibilizar informação fiável sobre materiais, produtos e processos tornou-se um requisito essencial.

“Os clientes querem saber mais sobre a origem dos materiais, o desempenho dos produtos e a conformidade dos processos”, sintetiza o CATIM. Ao facilitar auditorias, certificações e processos de validação, as tecnologias digitais reforçam a confiança dos mercados e ajudam as empresas portuguesas a integrarem-se em cadeias de fornecimento internacionais cada vez mais exigentes.

Para consolidar a posição da metalomecânica nacional nas cadeias de valor europeias, o centro tecnológico aponta três prioridades: reforçar a digitalização e a automação inteligente, desenvolver competências avançadas de ensaio e validação tecnológica e investir em novos materiais e processos orientados para a descarbonização, a eficiência energética, a economia circular e o hidrogénio.

O CATIM atribui igualmente um papel central aos Centros de Tecnologia e Inovação. À medida que os projetos ligados à energia, ao hidrogénio e às infraestruturas ganham complexidade, a aproximação da investigação e da aplicação industrial – através de ensaios, metrologia, caracterização de materiais, inspeção e validação tecnológica – torna-se um fator diferenciador para reduzir risco e acelerar a inovação.

Rafael Campos Pereira considera que o setor tem de continuar a investir em automação, digitalização e desenvolvimento tecnológico para subir na cadeia de valor. Defende também uma colaboração mais estreita entre empresas, universidades e centros tecnológicos. O objetivo, diz, é que a indústria participe mais cedo na conceção dos projetos e se afirme cada vez mais “como parceiro tecnológico da descarbonização e da modernização das infraestruturas”: “Um excelente exemplo do sucesso desta cooperação triangular é a Agenda Mobilizadora Produtech R3, que reúne 106 parceiros, entre os quais a AIMMAP, e da qual têm emergido dezenas de novas soluções também nesta área”, sublinha.

O dirigente destaca ainda o investimento em novas infraestruturas tecnológicas de apoio à indústria. Entre elas encontra-se o futuro laboratório de ensaios de eficiência energética e ecodesign do CATIM, concebido para apoiar as empresas em domínios estratégicos como a economia do hidrogénio, a digitalização e a economia circular.

Metalogalva

Metalogalva.

Competir num mercado global cada vez mais exigente

As oportunidades são significativas, mas os desafios continuam a ser numerosos. A escassez de mão de obra qualificada permanece entre os principais constrangimentos ao crescimento da indústria. A estas dificuldades juntam-se os custos energéticos, a pressão sobre as margens e a necessidade de investir continuamente em tecnologia para acompanhar a evolução dos mercados.

A concorrência internacional é outro dos temas que preocupa o setor. A Metalogalva aponta aquilo que considera ser uma falta de coerência entre os objetivos de reindustrialização da Europa e as regras do comércio internacional, defendendo uma maior proteção da indústria transformadora europeia. “A diferenciação portuguesa tem de vir da engenharia, da qualidade e da capacidade de resposta. Pela via do preço, sozinhos, não competimos”, sublinha.

A mesma preocupação é partilhada pela AIMMAP, que defende um maior alinhamento entre as políticas industriais europeias e os instrumentos comerciais, de forma a evitar desvantagens competitivas para os produtores europeus.

Ainda assim, o tom dominante é de confiança. A reconfiguração das cadeias de abastecimento, a procura por maior autonomia industrial e o investimento associado ao novo paradigma energético estão a criar potencial que poucas vezes surge numa mesma geração.

“Temos competências técnicas, conhecimento e experiência exportadora para assumir um papel muito mais relevante”, sustenta Rafael Campos Pereira. Na sua perspetiva, o desafio passa agora por transformar essas competências em maior valor acrescentado e participação nos grandes projetos que estão a redesenhar o setor energético europeu.

O dirigente acredita que a metalomecânica portuguesa reúne condições para “deixar de ser vista apenas como fornecedora de fabrico e montagem, passando a afirmar-se cada vez mais como parceira tecnológica da transição energética e da modernização das infraestruturas”.

Essa mudança já começou. E poderá representar uma das maiores oportunidades de crescimento da indústria portuguesa na próxima década.

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