A expansão dos centros de dados está a gerar uma nova procura por componentes metálicos de elevada precisão. Com o investimento da Start Campus em Sines e a crescente aposta das grandes tecnológicas na inteligência artificial, as empresas portuguesas de transformação de chapa, corte laser, quinagem e soldadura poderão encontrar um novo segmento de elevado valor acrescentado.
Durante décadas, a indústria metalomecânica encontrou nos setores automóvel, ferroviário, energético ou da construção alguns dos seus principais motores de crescimento. Agora, começa a emergir um novo mercado que, embora menos visível, promete gerar uma procura significativa por componentes metálicos produzidos com elevados níveis de precisão: os centros de dados.
O crescimento exponencial da inteligência artificial, da computação na cloud e da digitalização da economia está a obrigar as grandes empresas tecnológicas a investir milhares de milhões de euros em novas infraestruturas capazes de suportar volumes de processamento sem precedentes. Por detrás de cada modelo de IA, de cada pesquisa online ou de cada aplicação alojada na cloud existe um centro de dados onde milhares de servidores funcionam continuamente, exigindo soluções sofisticadas de alimentação elétrica, refrigeração, segurança e conectividade.
Portugal está agora a posicionar-se neste novo mapa europeu da infraestrutura digital. A entrada em operação do edifício SIN01 da Start Campus, em Sines, representa apenas a primeira fase de um projeto que prevê a construção de um campus com capacidade total de 1,2 GW, tornando-o um dos maiores complexos de centros de dados da Europa, preparado para responder às exigências das aplicações de inteligência artificial e computação de elevado desempenho.
Mais recentemente, o projeto ganhou uma nova dimensão com o anúncio da instalação de mais de 66 mil GPUs NVIDIA Rubin, destinadas à infraestrutura de IA da Microsoft, através da parceria entre a Nscale e a Start Campus. O investimento, que inclui centenas de milhões de euros em novas infraestruturas, reforça o papel de Sines como um dos principais polos europeus para a inteligência artificial.
O projeto de Sines insere-se numa tendência muito mais ampla. Nos próximos anos, operadores como Amazon Web Services (AWS), Google e Meta deverão investir mais de 270 mil milhões de euros na expansão da capacidade de processamento, acompanhando o crescimento dos serviços digitais e da inteligência artificial.
Ao contrário de outros segmentos industriais, onde a procura tende a acompanhar os ciclos económicos, os centros de dados caracterizam-se por projetos de grande dimensão, elevados volumes de produção e horizontes de investimento de longo prazo. Para os fornecedores industriais, isto traduz-se numa maior previsibilidade e numa procura sustentada por componentes altamente especializados.
À primeira vista, um centro de dados pode parecer apenas um edifício repleto de servidores. Na realidade, trata-se de uma infraestrutura industrial extremamente complexa, onde coexistem sistemas elétricos, mecânicos, hidráulicos e eletrónicos que exigem milhares de componentes metálicos produzidos com tolerâncias muito apertadas.
Grande parte dessas peças resulta de operações bem conhecidas dos fabricantes nacionais.
Entre elas encontramos:
Na maioria dos casos, estes componentes são fabricados em chapa fina, recorrendo a processos de corte laser, puncionamento, quinagem, soldadura e acabamento superficial.
No que respeita à qualidade dimensional, as exigências deste mercado aproximam-se das verificadas noutros setores tecnologicamente avançados. A uniformidade das peças é determinante, uma vez que qualquer desvio dimensional pode comprometer a montagem de equipamentos, sistemas de refrigeração ou infraestruturas elétricas.
Ao mesmo tempo, os clientes exigem repetibilidade, rastreabilidade e capacidade para produzir séries significativas com prazos reduzidos.
O crescimento das infraestruturas digitais implica igualmente um aumento significativo da procura por ligações elétricas em cobre de elevada condutividade.
Barramentos elétricos, conectores de potência, sistemas de distribuição energética e cabos para transmissão de dados exigem processos de união extremamente precisos, capazes de assegurar baixa resistência elétrica e elevada fiabilidade ao longo do tempo.
Neste domínio, a soldadura laser começa a assumir um papel cada vez mais relevante, sobretudo em aplicações onde os métodos convencionais apresentam maiores limitações em termos de deformação térmica, repetibilidade ou velocidade de produção.
À medida que aumenta a densidade energética dos centros de dados e cresce a necessidade de soluções de refrigeração líquida e distribuição elétrica de elevada eficiência, também aumenta a procura por tecnologias capazes de assegurar ligações metálicas de elevada qualidade.
Portugal dispõe hoje de um setor metalomecânico com competências consolidadas na transformação de chapa metálica, fabrico de armários técnicos, estruturas metálicas, equipamentos elétricos e soluções industriais para exportação.
Muitas destas empresas fornecem atualmente setores como a energia, a automação, a ferrovia ou a indústria alimentar. A evolução do mercado dos centros de dados poderá representar uma oportunidade para diversificar clientes e integrar novas cadeias internacionais de fornecimento.
Naturalmente, esse posicionamento dependerá da capacidade para responder aos padrões de qualidade exigidos pelos grandes operadores internacionais, bem como da aposta contínua em automatização, digitalização e qualificação tecnológica.
A importância do projeto da Start Campus poderá, por isso, ir muito além da infraestrutura que está a ser construída.
A presença em Portugal de um dos maiores campus europeus de centros de dados poderá funcionar como catalisador para o desenvolvimento de fornecedores nacionais especializados, aproximando empresas portuguesas das cadeias de valor associadas à inteligência artificial, à computação de elevado desempenho e às infraestruturas digitais.
Se essa oportunidade vier a ser plenamente aproveitada, Sines poderá marcar o início de um novo ciclo para muitas empresas nacionais de transformação de chapa.


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