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O que a guerra entre os EUA e o Irão poderá significar para a indústria mundial

Como as crises energéticas afetam o setor industrial

Jack Loughney, analista sénior de dados na Interact Analysis

25/03/2026
À medida que o conflito entre os EUA e o Irão se prolonga, e tendo em conta as suas consequências, prevê-se que os atrasos nas expedições, a fragilidade do abastecimento energético e as interrupções nas cadeias de abastecimento tenham impactos significativos na economia industrial global.
O Estreito de Ormuz é responsável por cerca de 20% do comércio mundial anual de gás natural liquefeito (GNL) e por até um quarto do petróleo transportado por via marítima. Esta disrupção está a impulsionar a subida dos preços futuros da energia. As tarifas de transporte de GNL no Atlântico e no Pacífico aumentaram mais de 40%, e o Ministério dos Transportes Marítimos da Coreia do Sul aconselhou os armadores a evitarem operar no Médio Oriente (segundo a Reuters, 2 de março). De acordo com o MarineTraffic, “uma queda de aproximadamente 70% no tráfego no final do dia 28 de fevereiro de 2026, juntamente com os ataques reportados, aumenta significativamente o risco de aplicação de cláusulas de força maior, ações de fiscalização e exposição a responsabilidades legais, mesmo sem um encerramento formal”.
Riscos emergentes na área da energia e das cadeias de abastecimento
Riscos emergentes na área da energia e das cadeias de abastecimento.
Historicamente, observaram-se dinâmicas semelhantes durante acontecimentos como o bloqueio do Canal do Suez em 2021, que provocou uma disrupção logística significativa. Por outro lado, as repercussões da crise energética entre a Rússia e a Ucrânia continuam a afetar, a longo prazo, os preços da energia e a indústria transformadora europeia. A situação em Ormuz combina, de forma eficaz, elementos de ambos os tipos de crise, sendo a melhor analogia a desaceleração industrial de 2015-2016.

Prevê-se que o impacto na indústria transformadora se faça sentir sobretudo em três áreas-chave. Os setores com elevado consumo energético, que ainda recuperavam do choque energético provocado pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia, devem enfrentar novos aumentos de custos – nomeadamente as indústrias química e metalúrgica. Por outro lado, os polos industriais orientados para a exportação na Ásia – que escoam produção através do Canal do Suez para África, Europa e Médio Oriente, mas dependem fortemente da produção petroquímica do Golfo – devem também enfrentar aumentos dos custos dos fatores de produção e possíveis perturbações logísticas. A longo prazo, a procura de maquinaria e equipamento industrial poderá enfraquecer, caso os preços da energia se mantenham elevados e a inflação leve os fabricantes a adiar ou reduzir o investimento.

Em 2022, a exposição da Europa à crise energética não foi totalmente evidente devido à forte recuperação da indústria transformadora após a COVID-19. No entanto, esse efeito amortecedor dissipou-se em grande medida, o que significa que uma perturbação semelhante, no contexto atual, poderá produzir resultados bastante distintos. Esta análise centra-se sobretudo no impacto histórico das crises energéticas no setor transformador.

Com a carteira de encomendas estabilizada e o crescimento industrial em desaceleração, qualquer interrupção prolongada no abastecimento energético ou nos transportes vai aumentar os custos, pressionar a produção e travar o investimento.

Como as crises energéticas se propagam pela indústria transformadora

Historicamente, as perturbações nos mercados energéticos e na logística global têm efeitos significativos nas fases mais avançadas da cadeia de valor industrial. Quando os preços da energia aumentam ou as rotas de transporte são limitadas, o impacto tende a propagar-se ao longo das cadeias de abastecimento, afetando primeiro as atividades mais intensivas em energia e, posteriormente, as decisões de investimento na indústria transformadora.

A crise energética entre a Rússia e a Ucrânia em 2022 constitui um exemplo recente, embora o seu impacto nem sempre tenha sido claramente visível nos dados de produção. A robustez da recuperação pós-COVID – sustentada por carteiras de encomendas elevadas, reposição de stocks e procura acumulada – permitiu manter a atividade industrial, apesar do aumento acentuado dos custos energéticos.

A recuperação pós-COVID-19 “mascarou” a fragilidade da indústria transformadora face ao aumento dos custos energéticos
A recuperação pós-COVID-19 “mascarou” a fragilidade da indústria transformadora face ao aumento dos custos energéticos.
Se analisarmos o desempenho setorial na Alemanha, verifica-se que as indústrias com maior intensidade energética enfrentaram pressões significativamente superiores à medida que o ciclo pós-pandémico normalizou. Setores como o químico e o metalúrgico registaram um forte aumento de custos com a energia. Embora tenham crescido durante a fase de recuperação, o seu desempenho foi claramente condicionado, sendo o crescimento observado mais resultado da normalização da atividade económica do que de um dinamismo industrial estrutural. Este fenómeno tornou-se evidente em 2023, com a contração destes setores, apesar do crescimento global da indústria transformadora alemã. O setor químico e farmacêutico registou, em particular, uma queda de 14,4%, superior à verificada durante a pandemia.
Os setores intensivos em energia recuperaram em 2021-2022, mas evidenciaram o impacto do aumento dos custos em 2023
Os setores intensivos em energia recuperaram em 2021-2022, mas evidenciaram o impacto do aumento dos custos em 2023.
Um exemplo histórico menos condicionado por efeitos extraordinários é a desaceleração industrial de 2015-2016. Nesse período, as alterações nos mercados petrolíferos e o abrandamento da procura global conduziram a um arrefecimento da atividade industrial, traduzido numa redução do investimento e numa menor procura de maquinaria. Embora, nessa altura, os preços da energia tenham diminuído – ao contrário do cenário atual –, o mecanismo de transmissão para a economia industrial é comparável.

Caso se verifique uma interrupção prolongada do abastecimento energético através do Estreito de Ormuz, a dinâmica resultante poderá assemelhar-se mais à observada em 2015-2016 do que à de 2022. Sem o impulso extraordinário do período pós-pandemia, o aumento dos custos energéticos poderá traduzir-se de forma mais direta em quedas de produção setorial. A subida dos preços da energia aumenta os custos para produtores e consumidores e, a prazo, conduz a uma menor procura de maquinaria, à medida que o investimento industrial abranda.

O crescimento do setor de maquinaria tende a ficar abaixo do da indústria transformadora, refletindo o impacto da redução do investimento...
O crescimento do setor de maquinaria tende a ficar abaixo do da indústria transformadora, refletindo o impacto da redução do investimento.
Atualmente, com a recuperação pós-pandemia praticamente concluída, o contexto da indústria transformadora global é substancialmente diferente do observado em 2022. As carteiras de encomendas normalizaram, os ciclos de inventário abrandaram e o crescimento industrial perdeu dinamismo. Neste enquadramento, uma perturbação prolongada nos mercados energéticos ou nas rotas marítimas poderá ter um impacto mais direto na produção e no investimento industrial. Na ausência de motores de crescimento robustos, uma crise energética prolongada poderá ter consequências significativas para a Europa e para a economia global, conduzindo a revisões em baixa das perspetivas atuais.
As perspetivas apontam para um crescimento moderado da indústria transformadora...
As perspetivas apontam para um crescimento moderado da indústria transformadora, mas uma crise energética prolongada poderá implicar revisões em baixa.

Reflexões finais

Os dados históricos indicam que as perturbações nos mercados energéticos e nas rotas marítimas globais tendem a propagar-se pela economia industrial de forma relativamente previsível. Ao contrário de 2022, em que o impacto foi parcialmente atenuado pela recuperação pós-pandémica, o contexto atual apresenta maior vulnerabilidade.

Com a carteira de encomendas normalizada e o crescimento industrial enfraquecido, uma perturbação prolongada – como a que poderá resultar da situação no Estreito de Ormuz – deverá traduzir-se mais diretamente num aumento dos custos dos fatores de produção, numa maior pressão sobre a produção e numa redução do investimento industrial.

A importância da inteligência industrial em contexto de crise energética

Compreender a forma como estas crises se propagam entre setores é essencial para antecipar riscos e identificar oportunidades. Para fabricantes, fornecedores e investidores, este nível de análise torna-se cada vez mais crítico num contexto global volátil. A análise de dados de produção por setor, região e indústria permite avaliar de que forma a volatilidade energética, as disrupções logísticas e as dinâmicas macroeconómicas afetam a economia industrial real. O Manufacturing Industry Output Tracker constitui uma ferramenta relevante para esse efeito.

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Jack Loughney, analista sénior de dados na Interact Analysis

Jack Loughney desempenha funções como analista principal de dados em diversas áreas de investigação. A sua experiência centra-se na modelação de dados, previsão económica e otimização de processos, com o objetivo de melhorar a eficiência dos produtos. É responsável pela gestão e desenvolvimento do Manufacturing Industry Output Tracker (MIO).

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