Com cerca de 30 anos de história, o fabrico aditivo metálico — frequentemente designado como impressão 3D em metal — entrou, na última década, numa fase de forte visibilidade mediática e reconfiguração estratégica. Entre a pandemia de Covid 19, a ascensão e queda de start-ups altamente financiadas, a afirmação do mercado chinês e o surgimento de novas arquiteturas tecnológicas, o setor tem revelado um dinamismo pouco comum na indústria transformadora.
A mais recente análise da consultora tecnológica IDTechEx, intitulada ‘Metal Additive Manufacturing 2025-2035: Technologies, Players, and Market Outlook’, traça um retrato detalhado desta evolução e projeta o comportamento do mercado na próxima década. O estudo — baseado num vasto conjunto de entrevistas e na experiência acumulada da consultora — apresenta previsões independentes e segmentadas, permitindo uma leitura estruturada de um mercado que deixou de ser apenas emergente para se afirmar como estratégico.
A primeira fase de expansão do fabrico aditivo metálico foi marcada por expectativas muito elevadas. A promessa de liberdade geométrica, redução de desperdício, produção descentralizada e diminuição do time-to-market atraiu investimento significativo. Contudo, o mercado rapidamente entrou numa fase de racionalização.
Segundo a IDTechEx, nos últimos anos o mercado foi palco de ajustes importantes: consolidações empresariais, falências de novos players e reavaliação de modelos de negócio. Paralelamente, assistiu-se a um crescimento consistente da base instalada, sobretudo em tecnologias já maduras, como os processos de ‘powder bed fusion’ (DMLS/SLM e EBM), que continuam a representar a maioria das instalações globais.
No entanto, a próxima década deverá ser marcada por maior diversidade tecnológica. Processos alternativos, novas abordagens de deposição e soluções com alimentação de material distinta (fio, pó alternativo, ligas especiais) estão a ganhar tração, apontando para uma fragmentação controlada do parque instalado.
Um dos contributos centrais do estudo é o benchmarking comparativo das diferentes tecnologias de impressão metálica. Num mercado onde a diferenciação comercial é frequentemente construída através de novas designações técnicas, a IDTechEx opta por uma categorização imparcial dos processos.
A análise demonstra que não existe uma tecnologia universalmente superior. Cada processo implica compromissos entre velocidade de produção, custo por peça, precisão dimensional, volume de construção e compatibilidade com ligas metálicas.
Esta leitura é particularmente relevante para a indústria europeia, onde o fabrico aditivo está cada vez mais integrado em estratégias híbridas — combinando maquinagem convencional e impressão 3D — e onde a decisão de investimento exige avaliação rigorosa do retorno.
Uma das conclusões mais significativas do estudo prende-se com a estrutura de receitas do setor. A IDTechEx antecipa que, até 2035, a maior fatia do volume de negócios anual não será gerada pela venda de equipamentos, mas pela procura de materiais.
A diversidade tecnológica implica exigências distintas ao nível das ligas, granulometria, pureza e propriedades mecânicas. O mercado regista atualmente:
O pó de titânio deverá manter-se como o segmento de maior relevância económica, refletindo a sua utilização intensiva nos setores aeroespacial e médico. Simultaneamente, ganham espaço ligas estruturais avançadas, compósitos de matriz metálica (MMCs), ligas de alta entropia e materiais amorfos.
A exploração de matérias-primas secundárias, incluindo reciclagem e reaproveitamento de sucata como feedstock, começa também a integrar as estratégias de sustentabilidade e controlo de custos.
O fabrico aditivo metálico consolidou-se em aplicações de elevado valor acrescentado. O setor aeroespacial continua a liderar a adoção, beneficiando da redução de peso, otimização topológica e consolidação de componentes. O setor médico, especialmente em implantes personalizados, é outro dos pilares estruturais do crescimento.
Outras indústrias — como petróleo e gás, joalharia e construção — começam igualmente a integrar soluções aditivas, ainda que de forma mais seletiva.
O estudo destaca que o crescimento tem sido sustentado sobretudo por verticais industriais premium, onde o custo unitário elevado é compensado por ganhos funcionais ou redução de complexidade de montagem.
O relatório analisa também o impacto do atual contexto económico e comercial. A discussão em torno de tarifas e reconfiguração de cadeias de abastecimento tem reforçado o interesse em modelos de produção distribuída e doméstica — uma área onde o fabrico aditivo metálico pode desempenhar papel estruturante.
Por outro lado, a incerteza económica pode travar decisões de investimento em tecnologias de elevado Capex, sobretudo em PME industriais. A curva de aprendizagem e a necessidade de qualificação técnica continuam a ser fatores críticos para a adoção.
O fabrico aditivo metálico já não é apenas uma tecnologia experimental ou limitada a prototipagem. A sua integração progressiva em ambientes produtivos industriais, aliada à expansão do portefólio de materiais e à consolidação dos principais fabricantes, indica uma fase de maturidade crescente.
A próxima década deverá caracterizar-se por maior especialização tecnológica, consolidação de 'players' e aprofundamento das cadeias de valor associadas aos materiais. O estudo promovido pela IDTechEx reforça essa leitura: mais do que uma promessa disruptiva, o fabrico aditivo metálico caminha para se afirmar como um pilar complementar — e, em alguns casos, estratégico — da manufatura avançada global.
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