Em Portugal, o Setor Metalúrgico e Metalomecânico (SMM) continua a enfrentar desafios significativos em matéria de segurança no trabalho, figurando entre os mais críticos da indústria transformadora ao nível da sinistralidade. O setor abrange sobretudo as atividades enquadradas nos CAE 24 (indústrias metalúrgicas de base), 25 (fabricação de produtos metálicos) e 28 (fabricação de máquinas e equipamentos, n.e.). Este contexto de elevada sinistralidade requer um reforço urgente das medidas de gestão e proteção no chão de fábrica.
Segundo os últimos dados oficiais disponíveis do Gabinete de Estratégia e Planeamento (GEP, 2025), em 2023 a indústria transformadora registou 42.407 acidentes de trabalho, o que corresponde a 23% do total nacional (184.607). Cerca de 30% (12.494) ocorreram especificamente no SMM. No que respeita aos acidentes mortais na indústria transformadora, a percentagem registada no SMM foi de 41%. A mesma fonte revela que, em 2022, se registaram 12.912 acidentes no SMM (valor semelhante ao de 2023) e 37,5% dos acidentes mortais (9 em 24). Estes dados evidenciam o impacto estrutural do SMM na sinistralidade nacional e reforçam a necessidade de definir e implementar estratégias para inverter este panorama.
A Segurança e Saúde no Trabalho continua a ser avaliada, em grande medida, através de indicadores de resultado (lagging), designadamente taxas de sinistralidade, número de acidentes com baixa, número de dias de trabalho perdidos e níveis de incapacidade resultantes. Estes indicadores continuam a ser fundamentais para monitorizar o desempenho da generalidade das organizações. No entanto, são indicadores reativos, visto que refletem acontecimentos passados e, frequentemente, evidenciam falhas comportamentais ou fragilidades na forma como os riscos são avaliados e controlados.
Em muitas organizações do SMM, a gestão da segurança permanece centrada na componente documental. Esta circunstância traduz-se em matrizes de avaliação de riscos extensas, complexas e de difícil consulta, por vezes desalinhadas com a realidade do chão de fábrica, em procedimentos desajustados da prática operacional e em registos redundantes. Por conseguinte, a gestão da segurança tende a tornar-se um exercício meramente formal. O sistema documental é indispensável, mas só cumpre o seu objetivo quando reflete o que realmente acontece nos postos de trabalho e quando apoia o processo de tomada de decisão e de melhoria contínua.
Caso se pretenda elevar o nível de segurança no chão de fábrica, é imperativo complementar a análise dos índices tradicionais com métricas de carácter positivo e preventivo. A integração progressiva de indicadores de processo (leading) permite antecipar erros e acompanhar ações, comportamentos e medidas antes da ocorrência de um acidente. Esta abordagem traduz uma mudança relevante: sair de uma lógica centrada na reação às ocorrências e no cumprimento legal, para reforçar uma cultura assente na antecipação e na melhoria contínua. Quando a política de segurança é realista, assumida e integrada na prática diária, deixa de ser um simples requisito formal e passa a afirmar-se como um verdadeiro fator estratégico de desempenho organizacional. Assim, para alcançar resultados sustentáveis, é determinante adotar ferramentas mais operacionais, alicerçadas num compromisso claro da gestão de topo, numa liderança consistente em toda a organização e no envolvimento ativo dos trabalhadores, nomeadamente:
A evolução tecnológica deve ser considerada no planeamento da prevenção, não como um elemento acessório, mas como um fator preponderante no reforço da segurança. Nos últimos anos, os avanços alcançados têm transformado de forma significativa os ambientes de trabalho e os processos produtivos, frequentemente associados ao aumento da produtividade. Contudo, esta transformação verifica-se igualmente na forma como os riscos são identificados e controlados, ou seja, no modo como as medidas de prevenção e proteção são implementadas no chão de fábrica. A inteligência artificial (IA) é um exemplo claro desta mudança. A integração de novas ferramentas de análise, monitorização e apoio à decisão influencia diretamente a natureza e a organização do trabalho e pode apoiar estratégias eficientes de prevenção de acidentes e doenças profissionais. Algumas destas soluções são identificadas na Figura 1 e descritas em seguida.
A tecnologia é, sem dúvida, um facilitador importante: alarga o alcance da prevenção e aumenta a precisão na análise de riscos e a capacidade de resposta. Importa, contudo, evitar a ilusão de que, por si só, constitui uma solução integral. Nenhuma solução tecnológica substitui o fator humano nem assegura, de forma automática, a eliminação de incidentes.
A gestão da segurança continua a depender de acompanhamento próximo, atenção constante e elevado sentido crítico. Para isso, exige presença no terreno, monitorização e envolvimento efetivo. A cultura de segurança não pode ser uma imposição, nem se consolida apenas com investimento em sistemas. Deve ser sustentada e construída no dia a dia. Quando os colaboradores se sentem valorizados e envolvidos nas decisões, o seu compromisso e motivação tendem a aumentar. Esse envolvimento manifesta-se na forma como percecionam os riscos, como cumprem os procedimentos e como intervêm quando identificam situações inseguras, tendo impacto direto na estabilidade da organização e na retenção de talentos e profissionais qualificados.
Em última análise, a redução do número de acidentes e das quebras de produção traduz-se numa diminuição de custos que não é unicamente operacional. Contribui para a sustentabilidade financeira e para a imagem externa da organização, reforçando a sua posição no mercado e a sua competitividade.
No CATIM, esta visão é inegociável e claramente assumida. A inovação tecnológica é um instrumento-chave, mas é a participação ativa e o compromisso diário das pessoas que realmente fazem a diferença.
Referências bibliográficas
Shah, I. A., & Mishra, S. (2024). Artificial intelligence in advancing occupational health and safety: An encapsulation of developments. Journal of Occupational Health, 66(1), uiad017. https://doi.org/10.1093/joccuh/uiad017
Gabinete de Estratégia e Planeamento. (2025, 30 de setembro). Séries cronológicas: Acidentes de trabalho 2012–2023 [PDF]. Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. https://www.gep.mtsss.gov.pt/documents/10182/26338/seriesat_2012_2023.pdf/270b8467-66f6-411f-adc8-450c05ae0465
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