O início de 2026 encontra o tecido industrial europeu num momento de estabilização frágil, após vários anos de choques sucessivos – pandemia, inflação elevada, conflitos geopolíticos e disrupções logísticas. Embora os indicadores macroeconómicos apontem para alguma normalização, subsistem condicionantes estruturais que limitam o crescimento e impõem maior rigor nas decisões de investimento. Neste contexto, temas como sustentabilidade, digitalização, reorganização das cadeias de abastecimento e governação tecnológica deixam de ser abordagens prospetivas e passam a integrar o núcleo da estratégia empresarial.
As perspetivas para a economia global em 2026 apontam para um crescimento moderado. De acordo com o mais recente relatório da Crédito y Caución, o PIB mundial deverá crescer cerca de 2,6%, refletindo um abrandamento, ainda que com uma recuperação ligeira projetada para 2027.
Na Zona Euro, a recuperação deverá situar-se em torno dos 0,9%, penalizada pela lenta retoma industrial e pelos efeitos prolongados das tensões comerciais. Ainda assim, países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia deverão beneficiar do dinamismo do setor dos serviços – em particular turismo, logística e serviços técnicos – com impacto indireto sobre a atividade industrial, quer através da procura interna, quer pelo estímulo ao investimento e à modernização de infraestruturas.
Para a indústria, este enquadramento traduz-se num ambiente mais seletivo, marcado por maior rigor no acesso ao financiamento e pressão sobre margens, exigindo foco na eficiência operacional e na diferenciação.
Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) indicam que as empresas exportadoras nacionais perspetivam um aumento nominal de 5,1% nas exportações de bens em 2026, com destaque para as exportações de máquinas e outros bens de capital, que deverão crescer 12,2%.
A redução da procura global de contentores e a descida dos custos de transporte aliviam algumas pressões conjunturais, mas não eliminam riscos estruturais, nomeadamente a dependência de matérias-primas críticas e a volatilidade dos preços da energia, que continuam a condicionar setores industriais intensivos em capital e exportação.
Neste cenário, ganham relevância estratégias de diversificação de fornecedores, regionalização produtiva e investimento em rastreabilidade ao longo da cadeia de valor, como resposta a um comércio internacional mais fragmentado e exigente.
A sustentabilidade consolida-se em 2026 como um eixo central da decisão empresarial. Esta foi uma das mensagens-chave do webinar ‘Tendências ESG 2026 e mais além’, promovido pelo BCSD Portugal, que reuniu especialistas das áreas de foresight, tecnologia e consultoria estratégica.
Durante a sessão, Rafael Popper, diretor da área de consultoria da Futures Capacity Academy (FCA), académico, investigador e reconhecido consultor internacional especializado em foresight, sublinhou que o essencial não está em prever o futuro, mas em preparar as organizações para diferentes cenários possíveis, transformando incerteza em opções estratégicas.
Na mesma linha, Manuel Mota, partner da EY e líder da área de sustentabilidade para Portugal, Angola e Moçambique, destacou que muitas empresas estão a adotar voluntariamente quadros de referência de sustentabilidade, mesmo não estando abrangidas por obrigações formais de reporte, reconhecendo vantagens competitivas ao nível da reputação e do acesso a financiamento.
A simplificação recente de alguns enquadramentos regulatórios, embora alivie encargos para determinadas empresas, levanta desafios em matéria de comparabilidade e governação, reforçando a responsabilidade das organizações na definição de critérios consistentes e credíveis.
A aceleração tecnológica mantém-se em 2026 como um dos principais motores de transformação industrial. A maturidade crescente da Inteligência Artificial, a consolidação de modelos de cloud híbrida e multicloud e o reforço das exigências em cibersegurança estão a redefinir prioridades de investimento.
De acordo com análises da Colt Technology Services, a IA entra numa fase em que o foco deixa de ser a experimentação e passa a centrar-se na geração efetiva de retorno. Após investimentos significativos, o desafio passa por integrar estas soluções nos processos industriais, assegurando ganhos mensuráveis de eficiência, fiabilidade e previsibilidade.
A expansão do edge computing, impulsionada pela necessidade de processamento em tempo real e pela soberania dos dados, terá impacto particular em ambientes industriais, permitindo suportar automação avançada e monitorização contínua ao aproximar a capacidade de computação do chão de fábrica.
Em paralelo, 2026 será marcado pela entrada em vigor de novos quadros regulatórios europeus, como o AI Act e o Cyber Resilience Act, com impacto significativo na indústria e exigindo uma abordagem mais estruturada à governação tecnológica, nomeadamente em sistemas de OT (Operational Technology).
Indústria de plásticos
Para a indústria de plásticos, 2026 deverá ser um ano de consolidação de tendências já em curso. A pressão para reduzir a pegada ambiental, aumentar a circularidade e responder a exigências regulatórias mais rigorosas mantém-se elevada. Neste contexto, a inovação em materiais, o ecodesign e a integração de dados ao longo do ciclo de vida do produto tornam-se fatores críticos de competitividade, sobretudo num ambiente marcado por custos energéticos e matérias-primas voláteis.
Indústria metalomecânica
A indústria metalomecânica enfrenta um cenário de procura seletiva e forte concorrência internacional. As análises da Crédito y Caución apontam para um contexto de investimento mais cauteloso e pressão sobre margens, agravado pela concorrência de mercados asiáticos e pela incerteza associada a tarifas e tensões geopolíticas. A modernização de processos, a automação e a digitalização assumem um papel central para compensar a escassez de mão de obra e reforçar a eficiência, enquanto a transição energética e os investimentos em infraestruturas criam oportunidades para empresas capazes de responder a requisitos técnicos exigentes e a critérios ESG cada vez mais presentes.
Envolvente do edifício e construção
No setor da construção e da envolvente do edifício, a sustentabilidade assume uma dimensão económica clara. A eficiência energética, a resiliência a riscos físicos e a conformidade com normas cada vez mais rigorosas influenciam diretamente decisões de investimento e financiamento. Materiais inovadores, soluções modulares e tecnologias digitais aplicadas ao projeto, execução e gestão de obra ganham relevância num mercado que procura reduzir custos de ciclo de vida e aumentar previsibilidade.
Energia, instalações e obras
Nos setores da energia, das instalações técnicas e das obras, 2026 será marcado pela continuidade do investimento em energias renováveis, redes e eficiência energética. A integração de soluções digitais, a gestão inteligente da procura e o armazenamento ganham importância num sistema energético cada vez mais descentralizado. Em simultâneo, os novos requisitos em matéria de cibersegurança e resiliência operacional, consagrados em enquadramentos como o Cyber Resilience Act, reforçam a ligação entre tecnologia digital e infraestruturas físicas.
Indústria alimentar
A indústria alimentar apresenta perspetivas relativamente favoráveis em 2026. Dados do INE indicam um crescimento nominal de 8,1% nas exportações de produtos alimentares e bebidas, refletindo a procura externa e a valorização de produtos transformados. Em paralelo, o setor enfrenta desafios significativos em termos de custos, segurança alimentar e rastreabilidade, tornando a digitalização da cadeia de abastecimento e a automação determinantes para responder a exigências regulatórias e às expectativas dos consumidores.
Indústria de produção agrícola
A agricultura enfrenta desafios específicos associados à pressão climática e à necessidade de produzir mais com menos recursos. A inovação, a eficiência no uso da água e da energia e a digitalização dos processos produtivos tornam-se centrais, num contexto em que são exigidos elevados padrões de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, alinhados com as tendências discutidas no âmbito do BCSD Portugal.
Mais do que um ano de rutura, 2026 afirma-se como um ano de decisões exigentes.
Como foi salientado no encontro do BCSD Portugal, sustentabilidade, tecnologia e inovação não são apenas temas para comunicar, mas prioridades que requerem execução coordenada entre empresas, governos e sociedade.
Num ambiente marcado por crescimento moderado, disrupção tecnológica e pressão regulatória, a vantagem competitiva dependerá da capacidade de interpretar sinais, integrar diferentes dimensões da estratégia e transformar incerteza em ação informada. Para a indústria, construir resiliência, flexibilidade e visão de longo prazo deixa de ser opcional e passa a ser condição de sobrevivência.
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