A transição energética não se resume apenas à substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis, mas envolve também uma profunda transformação na forma como extraímos e consumimos os recursos naturais. Um estudo recente, intitulado ‘Metals for the Energy Transition – Why we should address a raw materials transition together with the energy transition’, elaborado pela organização não governamental alemã PowerShift, revela como os metais se posicionam como peças-chave nesta mudança estrutural.
O estudo parte da premissa de que, independentemente da fonte de energia – seja de origem fóssil ou renovável – os metais são indispensáveis para a produção e manutenção de infraestruturas energéticas. Surpreendentemente, os dados indicam que a intensidade metálica (medida em gramas por megawatt-hora) das tecnologias renováveis não é necessariamente superior à dos métodos tradicionais baseados em combustíveis fósseis. Ao contrário, ao considerar o ciclo de vida completo dos sistemas de produção, as energias renováveis demonstram uma pegada ambiental consideravelmente inferior, sobretudo no que diz respeito à emissão de gases com efeito de estufa.
Um dos aspetos mais reveladores do estudo é a análise da crescente pressão exercida pelo setor da mobilidade. A substituição dos motores de combustão interna por sistemas de propulsão elétrica tem impulsionado a procura por metais críticos, como o lítio, o cobalto e o níquel. Enquanto a expansão da capacidade eólica e solar parece exigir quantidades relativamente modestas de metais – quando comparada com a produção energética global – a indústria automóvel emerge como um dos principais motores do aumento da procura por matérias-primas. Este cenário levanta questões cruciais sobre a sustentabilidade e a justiça global, uma vez que o elevado consumo de metais pode intensificar os impactos sociais e ambientais, sobretudo em regiões do Hemisfério Sul, onde a extração é frequentemente associada a conflitos e degradação ecológica.
Embora a transição para as energias renováveis represente um passo decisivo na luta contra as alterações climáticas, o estudo alerta para a necessidade de uma abordagem integrada que inclua a transição dos materiais brutos. A extração intensiva de metais – indispensáveis para a construção de infraestruturas renováveis – pode, se não for gerida de forma responsável, conduzir a consequências ambientais e sociais graves. Entre os riscos identificados estão a destruição de ecossistemas, a desflorestação e condições laborais precárias, que, além de comprometerem a biodiversidade, podem aprofundar as desigualdades socioeconómicas em países dependentes da mineração.
Neste sentido, o relatório sublinha que a implementação de metas de redução de consumo de matérias-primas em setores como a mobilidade e a construção é fundamental. Ao promover modelos alternativos e incentivar a economia circular, será possível mitigar a pressão sobre os recursos naturais e, simultaneamente, garantir uma transição energética verdadeiramente sustentável.
A análise comparativa apresentada pelo estudo evidencia que os sistemas renováveis, como os parques eólicos e as instalações fotovoltaicas, beneficiam de uma maior eficiência no uso dos metais quando analisados ao longo do seu ciclo de vida. Mesmo considerando os elevados volumes de matéria-prima necessários para a produção de equipamentos – como no caso das baterias para veículos elétricos – os ganhos ambientais são substanciais. Por exemplo, o investimento em cobre na construção de turbinas eólicas contribui para a redução das emissões de CO2, compensando, a longo prazo, o impacto ambiental inerente à sua produção.
Além disso, a integração de tecnologias que promovem a reciclagem e a reutilização dos metais desponta como um dos caminhos mais promissores para diminuir a dependência da extração primária. O desenvolvimento de cadeias de valor mais sustentáveis e a implementação de normas rigorosas de ‘due diligence’ ambiental e social são medidas que poderão transformar não só a indústria da energia, mas também a dinâmica global dos mercados de metais.
O estudo ‘Metals for the Energy Transition’, da PowerShift, conclui que a transição para um modelo energético limpo não está em contradição com a necessidade de reduzir o consumo de recursos primários. Pelo contrário, é imprescindível que a transformação dos sistemas de energia venha acompanhada de uma reformulação dos modelos de produção e consumo dos metais. Para além de reduzir a pegada ecológica, tal abordagem poderá incentivar a criação de empregos e a expansão das cadeias de valor em países ricos em matérias-primas, promovendo uma redistribuição mais equitativa dos benefícios gerados pela transição energética.
Em síntese, o desafio de alcançar uma transição energética verdadeiramente sustentável passa, inevitavelmente, pela revisão dos paradigmas de consumo dos metais. Investir em inovação, promover a economia circular e estabelecer metas claras de redução de consumo são passos essenciais para garantir que a mudança para energias renováveis seja, simultaneamente, amiga do ambiente e socialmente justa.
A análise técnica e abrangente da PowerShift revela que os metais desempenham um papel central na transformação do panorama energético mundial. Se, por um lado, as tecnologias renováveis demonstram ser menos intensivas em termos de consumo metálico do que se imagina, por outro, a pressão exercida pelo setor da mobilidade e as dinâmicas globais dos mercados de metais impõem desafios significativos. A construção de um futuro energético sustentável passa, portanto, por uma gestão integrada e responsável dos recursos naturais, garantindo que a luta contra as alterações climáticas não venha a comprometer a justiça social e a integridade ecológica dos países envolvidos.
Este olhar técnico, fundamentado em dados rigorosos e numa análise detalhada do ciclo de vida dos sistemas energéticos, assinala que a transição energética é, acima de tudo, uma transição de paradigmas – onde a inovação e a responsabilidade social se tornam os pilares de um novo modelo de desenvolvimento.
A PowerShift reforça a mensagem de que, para garantir uma energia verdadeiramente limpa e sustentável, é imperativo repensar não só a forma como produzimos energia, mas também como gerimos os recursos dos quais ela depende.
A PowerShift é uma organização não governamental alemã que afirma ter como objetivo alcançar “uma economia global ecológica e socialmente mais justa”. É especializada em comércio, matérias-primas e política climática e fornece investigação e análises políticas para identificar os problemas do sistema económico global e propor linhas de ação alternativas. Recebe financiamento de instituições como a União Europeia, a agência ambiental alemã (UBA) e uma série de grupos da sociedade civil, bem como de doadores individuais.
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