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Indústria automóvel vai conhecer uma “reconversão violenta” nos próximos anos

Hélder Marques17/05/2023

Esta é a conclusão de António Melo Pires, consultor com vários anos de experiência na indústria automóvel em Portugal e no Brasil, na apresentação que fez no XI Congresso da Indústria dos Moldes, decorrido nos dias 17 e 18 de março, em Oliveira de Azeméis, sob o lema ‘Moldar (n)um mundo em mudança’.

O XI Congresso da Indústria de Moldes contou com cerca de 400 participantes de mais de 100 empresas e entidades
O XI Congresso da Indústria de Moldes contou com cerca de 400 participantes de mais de 100 empresas e entidades.

Na opinião de António Melo Pires, a mudança de paradigma na indústria automóvel vai fazer sentir-se em quatro fatores fundamentais: no produto, cuja conceção vai mudar; na forma como os mercados vão reagir; no novo paradigma de mobilidade; e nas mudanças dos hábitos do consumidor.

No que diz respeito ao produto, a sua evolução vai girar em torno de “quatro grandes tendências: eletrificação, conectividade, reforço da tendência dos três R (reduce, recycle, reuse) e condução autónoma”. António Melo Pires dá o exemplo das baterias de iões de lítio atualmente em uso, com uma densidade de 200 kw/h. Para poderem vir a ter um mínimo de autonomia, a rondar os cerca de 450 quilómetros, que as tornem competitivas em relação aos veículos a gasóleo/gasolina, as baterias precisam de ter uma densidade energética de cerca de 500/600 kw/h. Para veículos pesados, essa densidade tem que ser de cerca de 1200 kw/h. Um objetivo que António Melo Pires acredita vir a ser atingido no próximo ano a ano e meio, com a tecnologia atual, e nos próximos três a quatro anos, com as novas baterias de estado sólido.

Eletrificação, conectividade, três Rs (reduce, recycle, reuse) e condução autónoma são as grandes tendências no mercado automóvel

Estas alterações nas baterias dos automóveis vão ter, e têm vindo a ter, um impacto no aumento no peso dos veículos, devido à maior incorporação de tecnologia, mas também ao aumento da dimensão por questões e conforto e segurança. Hoje, um carro de dimensão média não pesa menos de 1200 quilos, quando na década de 60/70 pesava cerca de 600 quilos. Isto representa um grande desafio para a indústria de moldes, que tem de ser capaz de apresentar soluções que permitam diminuir o peso dos componentes utilizados no fabrico dos veículos. Aumentar autonomia, reduzir peso do conjunto e melhorar a segurança são os objetivos que devem orientar a indústria no curto e médio prazo.

Além desta transformação das baterias, será necessário criar também uma “rede de recargas rápidas e com grande capacidade”. Os postos atuais não chegam para o carregamento das baterias do futuro. E, acrescenta o especialista, “criar uma rede em que o condutor não tenha que esperar mais do que cinco minutos de recarga, que acho ser o limite admissível para se comparar com um motor térmico. Vai ser um desafio. Aliás, autonomia, tempo de recarga e segurança serão alguns dos desafios do futuro”, sintetiza.

Outra tendência no futuro da indústria automóvel vai ser a utilização de materiais reciclados e recicláveis, bem como a eliminação de matérias-primas de origem animal nos componentes automóveis. Como destaca o orador, “a criação das redes de recolha de reciclagem e reuso dos materiais vão ser fundamentais (…) o que, obviamente, terá um enorme impacto na indústria de moldes”, uma vez que grande parte dos materiais de plástico têm a limitação de não poderem ser reciclados muitas vezes.

No que diz respeito aos veículos autónomos, o orador tem mais dúvidas. Na verdade, sendo perfeitamente possível, hoje em dia, conduzir um veículo dentro de um ambiente controlado, “pensar num carro que substitua um condutor na sua integralidade, com a capacidade do cérebro humano de atuar, ainda está um pouco longe”, até porque “a capacidade computacional que era necessário ter dentro de um veículo para gerir toda essa informação ainda não existe”, referindo-se aos gastos energéticos que este tipo de solução exige e à sua incompatibilidade com a tendência atual de poupança de energia. Nesta medida, discorda do um estudo da McKinzey que refere a condução autónoma como um dos vetores de crescimento da indústria automóvel até ao final da década, sentenciando que “vai acontecer, mas vai demorar bastante”.

António Melo Pires, CEO da consultora MeloPires. Foto: Cefamol
António Melo Pires, CEO da consultora MeloPires. Foto: Cefamol.

Apontando as previsões para um crescimento, em termos globais, do mercado automóvel nos próximos anos, na opinião de António Melo Pires este será “um crescimento assimétrico”, já que será difícil para os mercados europeu e sul-americano “crescer de forma sustentada”. E exemplifica com a subida dos preços dos automóveis em quase 50% no mercado sul-americano, nos últimos três anos. Este fator que reduziu substancialmente o número de pessoas com rendimento suficiente para adquirir um carro. A mesma tendência verifica-se na Europa, devido ao aumento dos preços das matérias-primas, à subida dos custos de fabrico e ao aumento da procura face à oferta, sendo hoje “difícil encontrar um carro por menos de 20 mil euros”. Uma tendência que vai continuar, uma vez que os fabricantes automóveis têm feito avultados investimentos para a transição de mobilidade, que vão ser, inevitavelmente, repercutidos na estrutura de custos do fabrico automóvel.

Por outro lado, António Melo Pires salienta a gradual alteração do paradigma de posse de um automóvel. Mais do que ter um carro, que é cada vez mais questionado, as novas gerações preferem, crescentemente, modelos de usufruto automóvel que não impliquem a sua propriedade, aliado aos investimentos que têm sido feitos em redes de transportes públicos e à insustentabilidade dos tempos de deslocação excessivamente elevados dos automóveis nas grandes cidades. Adicionalmente, “as políticas de proteção ambiental são outro fator de retenção” do crescimento do mercado automóvel.

Todas estas alterações se traduzirão num novo paradigma de mobilidade futura caraterizada pela “conexão de vários tipos de transportes, sobretudo nas grandes cidades”. Diversa, conectada, elétrica e dotada de inteligência artificial, a mobilidade será “adaptada à necessidade momentânea”, prevê o consultor.

Nesta perspetiva, a indústria de moldes encontra-se numa “encruzilhada bastante complicada”, motivada por vários fatores, como o reshoring, isto é, com a saída de várias indústrias da Ásia, para fugirem aos custos da cadeia logística. O problema é que os compradores de moldes não querem pagar mais do que têm pago na Ásia. É um outro desafio. Por outro lado, é convicção de António Melo Pires que “os volumes de grandes séries de carros vão ser mais reduzidos”, com a mobilidade dispersa por uma maior tipologia de veículos. Por isso, o consultor não espera que o mercado dos moldes cresça na Europa, nem na América do Sul, com a exceção possível do México, para onde se estão a deslocalizar grande parte das empresas que estão a sair da China. Na verdade, acredita que cerca de “50% da produção automóvel vai ficar localizada na Ásia-Pacífico”.

Para ser competitiva, a indústria portuguesa de moldes precisa de investir em inovação, diversificação e captação de valor em toda a cadeia
Assistência do Congresso. Foto: Cefamol
Assistência do Congresso. Foto: Cefamol.

Em jeito de conclusão, Melo Pires sintetiza alguns caminhos possíveis para a reconfiguração da indústria dos moldes: verticalização; apanhar valor em toda a cadeia, desde a conceção e desenvolvimento dos protótipos e não apenas no seu fabrico; inovação, uma maior dimensão das empresas para terem melhores condições de competitividade; e colaboração entre empresas. Respondendo à questão sobre o que poderá ser diferenciador na oferta portuguesa, António Melo Pires é taxativo: “Portugal já se distingue pela qualidade”. Mas precisa de ter capacidade para competir internacionalmente, o que passa pelo preço. E, para isso, “é preciso investir em inovação, diversificação e captação de valor em toda a cadeia”.

Momento importante no primeiro dia do congresso foi a intervenção de Eric Tordjeman, senior vice-president Operations Strategy da Forvia, empresa de tecnologia automóvel integrada no Grupo PSA, fabricante de marcas como a Peugeot, Citroen, DS, Opel e Vauxhall, que pode representar um importante cliente para várias empresas de moldes portuguesas. A sua mensagem foi clara quando declarou que “vão passar a comprar muito mais na Europa por causa das incertezas e inseguranças trazidas pela instabilidade mundial” e que pretendem “reduzir a dependência em relação à China”. Para isso, procuram fornecedores que sigam as diretivas de neutralidade carbónica que querem atingir até 2025; que criem uma cadeia de valor capaz de absorver o impacto do aumento dos custos; que sejam capazes de otimizar processos, desenvolver melhores ferramentas; de soluções que rentabilizem melhor o tempo de produção; e precisam de fornecedores que possam integrar cadeiras internacionais de abastecimento.

Perante todos estes desafios, na opinião de Jorge Castro, vice-presidente da Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel (AFIA), que também interveio no painel, o “preço continuará a ser o fator principal na equação”.

Concelho de Oliveira de Azeméis quer estar no centro da indústria automóvel em Portugal

Perante os grandes desafios que a indústria dos moldes irá enfrentar nos próximos tempos, Joaquim Jorge, presidente da câmara municipal de Oliveira de Azeméis, acredita que Portugal “tem todas as condições para reforçar a sua importância internacional na produção de moldes para o setor automóvel”.

Na sua intervenção na abertura do XI Congresso da Indústria dos Moldes, que teve lugar no seu concelho, destaca “a enorme ambição de [Oliveira de Azeméis] se tornar numa centralidade industrial na fileira da indústria automóvel em Portugal”. Para além do grande peso das empresas da indústria de moldes na economia do concelho, onde cerca de 17 mil trabalhadores – mais de metade do total da força de trabalho do concelho – estão empregados nas mais de 1100 empresas da indústria transformadora, o concelho conta ainda com uma das maiores e mais avançadas empresas de moldes do mundo, o Grupo Simoldes. Além disso, beneficia da proximidade do aeroporto do Porto e dos portos marítimos de Leixões e Aveiro, bem como de uma rede de autoestradas que ligam o concelho a todo o País e à Europa. Destaque ainda para a existência no concelho de dois centros de formação e conhecimento fundamentais para o setor automóvel: a Universidade de Aveiro e o CENFIM.

Para a concretização deste desiderato, o autarca insiste na urgência da concretização do “ousado e inovador projeto de construção de uma ‘Fábrica do Futuro’”, uma parceria que envolve a Escola Superior Aveiro Norte, a Universidade de Aveio, a autarquia de Oliveira de Azeméis e várias empresas. Um projeto estratégico para “potenciar o trabalho em rede e de partilha constante entre a universidade e as empresas, apoiado em laboratórios colaborativos desenhados para satisfazer as necessidades de investigação e inovação do nosso tecido económico”. Joaquim Jorge considera mesmo que “este projeto tem um potencial impacto que vai para além de Oliveira de Azeméis, pelo que deve ser considerado como de interesse estratégico nacional”.

João Faustino, presidente da Associação Nacional da Indústria dos Moldes (Cefamol). Foto: Cefamol

João Faustino, presidente da Associação Nacional da Indústria dos Moldes (Cefamol). Foto: Cefamol.

Os desafios da indústria dos moldes

Esta dinâmica económica de Oliveira de Azeméis, devida à sua indústria de moldes, está em linha com a dinâmica do setor de moldes nacional como um todo. E, de facto, na sua comunicação de abertura, João Faustino, presidente da Associação Nacional da Indústria dos Moldes (Cefamol), entidade organizadora do Congresso, salientou a importância de Portugal como sendo “o terceiro maior produtor de moldes a nível europeu e o oitavo a nível mundial”.

Contudo, é um setor que enfrenta vários desafios e incertezas com o aumento exponencial dos custos de produção e da inflação, a subida das taxas de juros ou a redução das margens de negócio. É, além disso, um setor que está demasiado exposto à indústria automóvel, apesar de ser estrutural para várias outras indústrias como a da embalagem, dispositivos médicos ou eletrodomésticos. É um setor que precisa, portanto, de diversificar a sua atividade. Mas não apenas para encontrar novos clientes e indústrias. Precisa de diversificar também para novos mercados, considerando o México, os Estados Unidos e Europa estratégicos para isso.

Simultaneamente, e para que as empresas do setor consigam manter a sua sustentabilidade e ganhar competitividade, João Faustino aponta para a necessidade de se encontrarem novas formas de financiamento e de capitalização das empresas, para o que as políticas do Governo de apoio à economia serão fundamentais.

No final do evento, a organização revelou que participaram neste Congresso cerca de 400 profissionais provenientes de mais de 100 empresas e entidades. No seu discurso de encerramento, o presidente da Cefamol reforçou: “Pretendemos que este congresso não marque um fim, mas um princípio de um novo ciclo de desenvolvimento. Em conjunto com o setor trabalharemos as propostas apresentadas nestes dois dias. Comprometemo-nos, a curto e médio prazo, a lançar ações com instituições de ensino, entidades públicas e governamentais. Contamos com a presença das empresas para, em conjunto, concretizar estes projetos e iniciativas.”

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