A tendência do momento é, sem dúvida, a indústria 4.0: novas funcionalidades baseadas em informação.

Wilfried Schäfer, diretor executivo da Associação Alemã de Fabricantes de Máquinas-Ferramentas

Luísa Santos08/07/2019
2019 é ano de EMO. De 16 a 21 de setembro, a associação alemã VDW organiza, em Hannover, mais uma edição da maior mostra mundial de máquinas, equipamentos e software para o fabrico de peças metálicas, desta vez sob o mote ‘Smart technologies driving tomorrow's production!’. Wilfried Schäfer, diretor executivo da VDW, explicou-nos as razões do sucesso deste certame e deu-nos a sua visão do setor.
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Pode descrever-nos a indústria alemã de máquinas-ferramentas?

A VDW tem cerca de 250 associados, na sua maioria fabricantes de centros de maquinação, de máquinas-ferramentas e de componentes para máquinas-ferramentas, o que representa cerca de 90% da totalidade do setor, na Alemanha. No ano passado, atingimos um valor record de faturação de cerca de 17,1 biliões de euros, com um ratio de exportação de cerca de 17%, e um número total de 75 mil empregados.

A adesão da indústria à VDW é bastante elevada…

Sim, a VDW é uma associação muito antiga, com 127 anos de atividade. Temos uma longa tradição de trabalho com o setor. Além disso, é uma associação de filiação livre, ao contrário do que acontece com outras na Alemanha, e, de facto, as empresas optam por permanecer associadas porque dão valor ao suporte que lhes damos e aos serviços que prestamos. Somos, em muitos aspetos, consultores industriais dos nossos associados. Fazemos análise de mercado, disponibilizamos dados estatísticos, entre outros serviços, e a indústria valoriza bastante este tipo de informação.

2019 não vai ser um bom ano para os fabricantes de máquinas-ferramentas. Como vê o setor na Alemanha? Pode comparar a situação dos fabricantes alemães com a de outros países europeus?

É sempre difícil comparar a Alemanha com outros países europeus porque nem todos os fabricantes europeus têm o mesmo leque de equipamentos. A Alemanha é, de longe, o maior fabricante de máquinas-ferramentas na Europa, com mais de 45% da produção. Temos uma presença forte em todos os mercados, o que não acontece com a maioria dos outros fabricantes europeus.

E sim, é verdade que desde o final de 2018 assistimos a um abrandamento nas encomendas, mas isso acontece depois de termos tido o melhor ano de sempre. Portanto, neste momento, não antevemos uma crise. Inclusive, em 2019 esperamos atingir o mesmo nível de produção, já que a indústria ainda tem muitas encomendas que vêm de 2018. A questão é: como será 2020? Temos de esperar para ver que encomendas entraram no segundo semestre deste ano. E isso vai depender de vários fatores, principalmente políticos. As guerras comerciais a que assistimos hoje causam muita incerteza e a indústria quer esperar para ver o que acontece.

E vai depender também da definição de um rumo por parte da indústria automóvel, não concorda?

Sim, os desenvolvimentos na indústria automóvel não são claros. Os construtores estão a tentar encontrar soluções energéticas mais eficientes, mas ainda não sabemos que direção vão seguir e com que rapidez o vão fazer. Há que ter em conta muitos aspetos como as infraestruturas de suporte, nomeadamente nas viagens de longa distância. Não podemos pensar apenas nas distâncias a nível europeu. Em grandes mercados, como o asiático, as distâncias são muito maiores e isso faz com que ainda precisem de veículos com motores clássicos ou híbridos. Portanto, esta é ainda uma questão em aberto.

A Alemanha tem, ou teve, alguns fabricantes nas primeiras posições do ranking mundial de máquinas-ferramentas. Ainda é assim?

No que diz respeito ao volume de produção, a China ocupa o primeiro lugar. A Alemanha tem vindo a disputar o segundo lugar com o Japão e, em quarto lugar está a Itália. No entanto, temos de diferenciar volume de nível tecnológico. E, neste aspeto, competimos pela liderança com o Japão e a Suíça, não com a China, que está num nível tecnológico mais baixo.

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Qual é o principal setor-cliente da indústria alemã de máquinas-ferramentas?

O principal setor-cliente é, sem dúvida, o automóvel, que consome cerca de 45% da produção alemã de máquinas-ferramentas. O segundo maior, com cerca de 30%, é o da construção geral de máquinas e equipamentos, como as máquinas agrícolas, de impressão ou de transformação de plásticos, entre outras. Portanto, mais de 70% da produção está destinada a apenas estas duas áreas. Depois temos outros setores, de menor dimensão, como o aeroespacial, de dispositivos médicos ou de equipamentos eletrónicos, por exemplo.

Em 2019, é esperado um crescimento em algum desses setores?

Tanto a indústria aeroespacial como a dos dispositivos médicos têm muitas encomendas, com prazos de entrega bastante alargados, mas estes são setores de muito pequena dimensão, que não têm poder para aumentar o consumo global. Ao mesmo tempo, no primeiro trimestre deste ano, o setor da construção de máquinas e equipamentos alemão assistiu a uma redução em cerca de 10% nas encomendas. Mais uma vez, é um abrandamento que parte do ponto mais elevado de sempre. E, por outro lado, acaba por ter aspeto positivos, pois permite às empresas diminuírem os prazos de entrega, e isso também é importante.

Quais são os principais países de destino das máquinas-ferramentas alemãs?

Em primeiro lugar, a China, em segundo os EUA, seguidos de Itália e de França.

E Portugal?

Portugal ocupa o 27º lugar.

Alguns países, como a China, são uma boa oportunidade para os europeus venderem mais máquinas, mas também uma ameaça, porque também são fabricantes. Concorda com esta afirmação?

A China não é nosso concorrente direto em termos de equipamentos tecnologicamente avançados. Os fabricantes chineses vendem em mercados onde as nossas empresas não estão. Em alguns mercados menos exigentes, o que pode acontecer é o cliente comprar equipamentos chineses de gama média para um setor da produção e colocar máquinas europeias apenas nas fases finais de acabamento.

Que tipo de máquinas são mais procuradas nesta altura? Os centros ‘multitask’ ainda são uma opção importante?

É difícil dizer porque as várias tecnologias têm pesos diferentes na produção. Podemos dizer que, no geral, um terço dos equipamentos vendidos são de conformação e dois terços são de corte. Depois, dependendo da cadeia de valor, existe uma procura maior de centros de maquinação e de tornos do que de retificadoras, que só são utilizadas no final do processo e, como tal, é natural que se vendam menos.

Em termos globais, podemos dizer que, nos últimos anos, assistimos a um aumento da procura em todos os tipos de máquinas. E, como disse, as máquinas multitask’, ou seja, que combinam várias tecnologias, como torneamento e fresagem, fresagem e retificação ou fresagem e impressão 3D, ainda têm uma grande procura. Estas soluções permitem otimizar a produção no que diz respeito ao espaço ocupado no chão de fábrica, mas também no que diz respeito à qualidade da peça final, que não precisa de passar de uma máquina para a outra.

Existe alguma tendência técnica que queira destacar?

Nesta área, a evolução é gradual e vemo-la em todos os aspetos. Mas a tendência do momento é, sem dúvida, a indústria 4.0: novas funcionalidades baseadas em informação. E estamos a falar não só de um processo vertical, em que obtemos dados da máquina e do processo, analisamo-los e, com base neles, apresentamos ao cliente novas funcionalidades, mas também de um processo horizontal, que permite otimizar todo o fluxo logístico da encomenda.

Muitas das feiras europeias dedicadas a esta área têm dificuldade em atrair expositores e visitantes. Que fatores contribuem para o sucesso sistemático da EMO?

Bom, em primeiro lugar, a EMO não é uma feira alemã, é uma feira líder mundial. Além disso, neste certame só podem expor fabricantes. Este é um ponto fulcral para atrair visitantes: noutras feiras que não têm esta exigência, muitas vezes o expositor é um representante de inúmeras marcas que apenas disponibiliza ao visitante informação comercial e não técnica. Na EMO, os expositores disponibilizam técnicos especializados que estão lá para dar ao visitante pormenores técnicos dos equipamentos. Outro fator importante é o facto de, uma vez que está é a feira líder do setor, muitas empresas esperem pela EMO para aí apresentarem as suas inovações. Portanto, nesta feira temos de facto uma visão geral do estado da arte e das novidades do setor. Por outro lado, na perspetiva do expositor, ele sabe que cerca de 50% dos visitantes da EMO são estrangeiros. Ao expor nesta feira, ele sabe que vai encontrar 75 mil visitantes de todos o mundo, inclusive da Ásia.

Finalmente, quantos expositores Portugueses vão estar presentes?

Quatro. Mas poderiam ser mais: este ano teremos uma nova área de exposição especialmente dedicada à IOT, onde poderão expor empresas que desenvolvem soluções de software para a análise de dados ou para a segurança na transmissão de informação. O cliente quer ter a certeza que a informação que sai da máquina, para tratamento informático, não é usada nem conhecida por mais ninguém. Esta é uma área com muita procura e onde, certamente, Portugal poderia ter mais expositores.

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